Sobre Paramore depois da risada, depressão e ansiedade
August 06, 2017 - Tags: Arte, Música

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Paramore lançou  After Laughter, seu mais novo disco, não faz muito tempo e eu pensei que a vontade de falar sobre ele e linkar o tema das músicas da (ex)banda emo iria passar com o tempo, mas só fez crescer. Tudo isso pela identificação sem tamanho que o CD causou em mim.

Acredito que a banda formada quando os integrantes eram adolescentes não poderia ter caminhado para outro caminho. Depois de inúmeros desentendimentos e um CD inteiro dedicado às brigas da banda (o Brand new eyes, de 2009), saída do guitarrista e baterista, volta, saída e volta de novo do baixista Jeremy e um grande hiato, o próximo CD da banda traria letras com temas  inevitáveis. O que quero dizer é que After Laughter seria um “álbum-consequência” para a banda e principalmente para a vocalista Hayley Williams.

O disco e suas letras não poderiam ter caído de forma mais perfeita no momento atual da minha vida. E o mais incrível, na vida de muitos dos fãs da banda, que agora já não são mais adolescentes e tem que encarar a realidade da vida adulta no século da ansiedade e depressão.

O que acontece depois da risada, afinal? Hayley  e qualquer um que sofra de ansiedade e depressão sabe muito bem. Por mais que tenha tentado fugir desses demônios, como a própria vocalista afirmou em entrevistas, eles acabaram a alcançando e a tornaram quase incapaz de conseguir compor para o Paramore. Foi só coma  ajuda do guitarrista Taylor (que também tem ansiedade) que ela conseguiu voltar aos trilhos e juntos fazerem o After Laughter.

Quando ouvi o CD não gostei nem um pouco do novo estilo hipster das músicas, mas logo com a primeira faixa, Hard Times, já me senti menos sozinha. Era como se Hayley estivesse cantando exatamente o que eu sentia.

Tudo o que eu quero

É acordar bem

Me diga que eu estou bem

Que não vou morrer

Tudo o que eu quero

É um buraco no chão

Você pode me avisar quando estiver tudo bem

Para eu sair

Tempos difíceis

Vão te fazer pensar em por que você ainda tenta.

 

Depois da risada, para mim, é exatamente esse momento que você meio que desiste de dar murro em ponta de faca, se sente tão incompetente e fraco contra as inúmeras coisas ruins que o mundo insistentemente joga na sua cara sem você ter  forças para revidar.  Quando você desiste de tentar ver as coisas pelo lado bom.

Depois de três anos de tratamentos com terapia e remédios, aquela coisa mais forte que você volta com tudo e, na real, você não quer mais fingir que está bem. Não quer que perguntem como você está e, principalmente, só quer que te deixem chorar em paz, exatamente como diz a 3ª música do disco, Rose-colored boy:

 

(…) Estou tão irritada

Porque eu acabei de matar

O que restava de otimista em mim

Corações estão se partindo, guerras estão aumentando

E eu tirei meus óculos

Você me deixou nervosa

Estou bem no fim da minha corda

Uma garota meio vazia.

Apenas me deixe chorar um pouco mais

Não vou sorrir se eu não quiser

Ei cara, nem todos nós podemos ser como você

Gostaria que fôssemos todos cor-de-rosa.

Parece mais triste do que é, mas a realidade é que é muito reconfortante ouvir  como você se sente saindo da boca de pessoas que, assim como você, um dia foram seres saltitantes que enxergavam o mundo de uma forma melhor.

Foi uma surpresa ver que agora, com seus 28 anos, Hayley e o guitarrista Taylor tiveram a coragem de falar o que muita gente tem vergonha de falar. Escrever músicas que refletem toda uma geração angustiada vivendo em uma sociedade aos pedaços.

Mas nem de coisas ruins After Laughter é feito. As baladinhas românticas e com letras mais animadas ainda estão ali, só que de forma realista. Como Forgviness ( “Não vá me entender errado, perdoar não é esquecer “) ou Grudges:

É estranho como nos achamos

Exatamente onde nos deixamos

Eu sei que você está me cumprimentando

Como se fosse a primeira vez

Pare de perguntar por quê

Por que nós tivemos que desperdiçar tanto tempo

Bem, nós acabamos de levantar, levantamos e começamos de novo.

Depressão e ansiedade estão aí. Empurrar para debaixo do tapete não vai trazer a solução. Acho que o que eu e qualquer outra pessoa que tenha isso nas suas vidas tem que fazer é reconhecer  que estamos presos bem no meio e que, assim como Caught in The Middle diz, não temos que olhar para traz muito menos muito à frente, apenas tentar continuar seguindo.

É por isso que After Laughter, apesar de não ser meu favorito da banda, foi como um presente do universo. A banda cresceu e mudou, assim como eu e meus amigos, e saber que não estamos sozinhos e nem vamos chegar ao fundo do poço nesse furacão de emoções é lindo.

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Meus filhos não vão ouvir The Cure
May 29, 2017 - Tags: Era para ser uma crônica, Textos

 

 

 

Quando tinha 12 anos, depois da transição Xuxa – Hanson – Thalia – Foo Fighters – Red Hot Chilli Peppers, fui introduzida a uma vida de sentimentalismo, e antes fosse sentimentalismo Celine Dion. Não. Estou falando do sentimentalismo desesperador, aquele que faz a gente querer dançar com a parede usando sobretudo e bebendo vinho quente em pleno sol do meio dia.  Cresci e me desenvolvi de criança para adolescente ouvindo Theatre of Tragedy, Lacuna Coil, Tristania, Lacrimosa e indo à baladinhas góticas sem nem ter peito. Meu mundo era pentagrama, saias longas, roupas e maquiagem pretas.

Depois disso, aos quinze, veio a fase Glam  Rock seguida da liberdade, que consistia no lema “posso ouvir o que quiser, não preciso ser nada. Sou eu.  E eu ouço Kelly Clarkson E Placebo!”. Mas a liberdade não serviu de muita coisa, porque já era tarde. O sofrimento que todo aquele melodrama que ouvi no passado já estava impregnado em mim, ou seja, a trilha sonora da minha adolescência teve um papel fundamental no desenvolvimento da minha essência emocional.

Um dia eu dei uma festa de Halloween aqui em casa, com família e amigos, e a trilha sonora foi de Karol Conka a The Cure. Acontece que enquanto os pops soavam a solta, minhas priminhas entre 7 e 12 anos dançavam alegres na garagem, mas quando a voz do Robert Smith  começou, minha prima Sophia de 8 anos, veio até mim, a DJ, e com as sobrancelhas caídas perguntou:

“Que música é essa?”

“É The Cure, Sophia. Gostou?” eu respondi animada, a música havia chamado a atenção dela, então vai ver ela tinha tendências para um bom gosto musical.

Mas Sophia simplesmente franziu mais a testa, fez uma careta triste e respondeu:

“É uma música muito estranha” – e saiu.

Naquele momento eu soube que jamais faria Sophia ouvir The Cure. Se ela, com aquela idade, em poucos segundos ouvindo a música, já conseguiu sentir o estranhamento que um pós-punk de qualidade poderia lhe causar na alma, o que crescer com aquilo na playlist faria com sua mente ao longo dos anos? Pobrezinha.

Pensando nesse episódio eu desenvolvi a seguinte teoria:  as músicas têm um poder de ativar sentimentos ocultos na sua mente. E não estou dizendo em provocar sensações, mas sim em ativar áreas no seu cérebro que, se não tivesse escutado certa música, não seriam ativadas.  O problema é que uma vez ativada, não tem volta. Principalmente se ela foi ativa em uma fase da vida em que estamos nos formando.

Faz um tempo eu vi um vídeo do Tavião (do Rolê Gourmet) no canal do Youtube The Cookie Collector falando sobre os cinco discos que ele mais gostava. A tag do vídeo era ele explicar o que esses álbuns significavam para ele. Na lista estava um álbum do Radiohead e Tavião explicou que ele ouviu muito o CD quando era adolescente e passava por uma fase muito ruim da vida dele. Acontece com todo mundo, ninguém está triste e quer ouvir música feliz, mas o que Tavião falou ficou na minha cabeça: basicamente o disco alimentou ainda mais aquela fase ruim da vida dele. Com a melodia e as letras do Radiohead constantemente no seu rádio ele desenvolveu uma visão melancólica sobre a vida e nunca mais conseguiu se recuperar disso. Nas palavras dele – até onde me lembro – ele foi tão infeliz naquela época que tornou impossível voltar a ser feliz como antes.

Eu sei, é uma linha de pensamento muito pesada e pessimista.  Parece muita loucura, mas se pensar bem, não é.  A gente vai se tornando aquilo que consumimos ao longo da vida. Absorvemos os filmes, os livros, as pessoas e as músicas que ouvimos. Cedo ou tarde, consumir aquela  música te faz pensar e sentir coisas que você poderia não vir a sentir e pensar se não tivesse consumido aquela música.

Pode ser o contrário também, a pessoa já ter tendências melancólicas e acabar se atraindo por músicas no mesmo estilo, mas não vamos tirar todo o crédito dessa minha teoria altamente bem embasada, certo?

No meu caso já não adianta mais fugir. Na minha playlist os favoritos são os tristes. Os donos das melodias que me fazem tão melancólica que chego a ficar feliz. De qualquer forma não vou mostrar Radiohead nem Smiths para meus filhos. Vou encher o celular deles de Taylor Swift e Ariana. A coisa mais triste que eles escutarão vai ser I just cant stop loving you do Michael Jackson. Isso porque nem triste é, apenas romântica. Mas mesmo assim, se pensarmos bem, pode gerar uma certa dorzinha no coração.

 

 

Imagem retirada de petofpoe.deviantart.com

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Uma sessão de terapia
May 09, 2017 - Tags: Textos

“Por que não faz um blog?”, perguntou ela. Sentava confortavelmente na sua poltroninha de veludo e abraçava o travesseiro, assim como eu.

Não sei o que há com salas de terapia, mas os travesseiros nas poltronas devem ser essenciais. Se não tem travesseiro, abraço minha bolsa  jazida no colo e fico parecendo uma criança que não quer largar do bichinho de pelúcia. Mas ainda bem que na sala daquela ali tinha travesseiro.

“Eu tenho um blog”.

“Ah!”

“Mas não é profissional. Não é jornalístico. Não faço dele meu portfólio”

“Entendi. Qual é o nome?”

Silêncio.

Mordo a boca.

“Hum… não quero falar”.

“Por que não?”

“Porque é muito pessoal”.

“Você mostra o blog para mais alguém?”

“Sim.”

“E para mim, que sou sua terapeuta, você não quer mostrar.”

Foi uma afirmação, mas fingi que fora pergunta.

“Não.”

 

Ah, as ironias da vida.

 

Espero que Freud explique isso.

 

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No final sempre sou a louca
April 25, 2017 - Tags: Devaneios, Textos

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No final do dia eu sempre sou a louca. Chamo demais, mando muitos memes, rio demais, grito demais, beijo demais, chamo para sair muitas vezes na mesma semana, marco uma saída muitas semanas à frente, falo demais, pergunto demais, cobro demais, crio expectativas demais.

No final, mesmo que mal tenha tido um começo, sobra uma pessoa amedrontada e outra esgotada. Eu sempre sou a segunda.

Intensidade com ansiedade dá nisso; muito de tudo. E não só muito, mas para agora, para ontem.  O azar é que ninguém que tropeça pelo meu caminho partilha de nada disso. Um pouco só dessa intensidade ou dessa ansiedade já seria o suficiente para a balança não ficar tão pesada no meu lado. Mas nunca é.

Acabo estragando tudo porque se não tem meu ritmo, então que não tenha ritmo nenhum. Prefiro dançar sozinha do que dançar com alguém uma música que não escolhi. Escolho me levantar e ir embora da festa do que ter que esperar ele me tirar pra dançar. Se não quer dançar agora, querido, então deduzo que não vai querer dançar nunca.

Dou meu adeus e sigo, mesmo tendo ciência de que, para o querido, os meus 40 minutos possam ser 3. Não importa, não funcionaria. As engrenagens girariam em sentidos influentes uma para a outra, então ele correria ou me mataria. Mataria porque é isso que querem fazer aos loucos e, no final da conversa, do lance, do pequeno romance, eu sempre acabo sendo a louca.

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Áreas cinzas e o desequilíbrio do poder
March 27, 2017 - Tags: Era para ser uma crônica, Textos

Girls está na sua última temporada e como se houvesse guardado o melhor para o final propositalmente, Lena Dunham – criadora da série – ofereceu um episódio que causou um rebuliço no meu estômago. Terminei de assisti-lo angustiada, com algo preso na garganta, furiosa, mas principalmente triste. Tão triste que foi impossível não chorar. Fiquei com o episódio por um longo tempo na cabeça, não deixei de pensar nele por dias até tomar a decisão de vê-lo de novo para esclarecer o sentimento que me causou e finalmente entender o porquê.

O 3º episódio da 6ª e última temporada se chama American Bitch e começa quando um escritor aclamado convida a protagonista Hannah para seu apartamento. O motivo do cara é contar o seu lado da história sobre um artigo que Hannah havia escrito sobre ele. O artigo em questão trata das acusações de assédio sexual que esse autor recebeu de quatro garotas diferentes, e por causa disso ele não conseguia mais dormir, começou a fazer ­­terapia, meditação e perdeu 9 kilos.

Pensei então que Lena Dunham havia dedicado o episódio especialmente para falar sobre esses homens acusados de assédio por alguma garota, cuja história pode ser relativizada e causar um debate muito longo sobre consentimento. Assim, me aconcheguei no sofá e assisti pacientemente esse personagem se explicar e acusar Hannah de escrever um artigo sobre textos de mulheres – note bem, MULHERES – que ela nem conhecia, baseado em boatos.

Talvez esse cara tivesse razão e, assim como Hannah, o ouvi e me deixei levar. Ao longo da conversa, o personagem diz que nunca forçou ninguém a fazer sexo com ele, afinal todas as garotas que o acusaram de assédio sexual foram por livre vontade.

É engraçado, mas tudo o que ele fala começa a fazer muito sentido, no entanto a agulhinha do incômodo me espeta de leve na nuca. Já havia ouvido isso antes, a fala de que mulheres que acusaram algum homem de assédio sexual, na verdade, estavam inventando tudo. Inventaram porque sentiram-se magoadas e rejeitadas por esse homem. Então nada do que esse personagem escritor fala é novo, é um discurso muito velho: a manifestação da desconfiança. Por que devemos acreditar em universitárias que acusaram um autor famoso de forçá-las a fazer sexo oral nele?

Talvez ele esteja sendo sincero, concluo comigo. Fico quieta quando o personagem perde o controle e grita com Hannah que tudo o que ele fez foi convidar aquelas garotas para seu quarto de hotel. Onde um convite é um assédio?!

Tendo ele dito isso, Hannah cita o desequilíbrio do poder na seguinte fala:

“Estou falando da parte em que você é um escritor famoso e ela trabalha muito para receber uma migalha do que você recebe todo dia. Então você a convidou para ir ao seu quarto de hotel e o que ela deveria dizer?Não? Ela o admira. Então você tira a calça. O que ela vai fazer sem seguida?Você não entendeu. Não é que ela foi até lá para ter algo sobre o que escrever. Foi para ela sentir que existe”.

– perdão pelos possíveis erros de tradução.

Não estou falando que todas as mulheres que fazem isso são coitadas que, meu Deus, só querem a atenção de um homem que elas admiram, mas essa fala ficou muito clara para nos fazer entender a dinâmica do poder. E isso pode se aplicar em incontáveis escalas: de uma adolescente e um youtuber que ela admira – são INÚMEROS os casos de youtubers pelo mundo que constroem uma relação de poder e submissão com suas fãs, basta dar um google – , até uma garota comum com a autoestima baixa e seu ex-namorado que só queria uma transa rápida.

Por fim o escritor diz que convidar uma adulta para seu quarto sem forçá-la não é um crime. Convites não são áreas cinzas, são apenas convites.  Ah, a área cinza. Saber que nem tudo é preto ou branco, que cada um faz o que faz por certos motivos, é reconfortante,  pois todos nós temos  traumas e histórias, mas apesar de oferecer o conforto de justificar atitudes que não conseguimos explicar nem entender, a área cinza é perigosa. É perigosa porque algumas coisas que não devem ser postas lá, são. E uma dessas coisas é o assédio sexual.

Vamos lá, quem com menos de quinze anos nunca foi assediada? Nós sabemos. Sabemos que quando está acontecendo não vemos nada demais. Ficamos lá, paradas, assistindo acontecer. Pode ser só uma massagem de um professor, um velho agarrando seu braço na rua quando você tinha dez anos, seu professor de teclado acariciando suas coxas quando você acertava as notas. Situações que, se ditas em voz alta, não parecem tão graves assim, pois carinho e elogios são relativos, certo? Se tratam, afinal, de áreas cinzas.

Assim como Hannah, e talvez Lena, me descobri cansada da área cinza. Me cansei porque é por causa dela que muitas de nós não entendemos o que exatamente aconteceu, porque usamos a relativização em busca de respostas. E, às vezes, a resposta está no preto ou no branco, nunca nos dois. Às vezes nem tudo possui dois lados.

Com essa revelação feita o episódio e eu seguimos juntos… Hannah se desculpa por ter escrito o artigo agora que conhecia esse escritor melhor. Eles criam uma sintonia e afinidade quando ele deita na cama encolhido, como um bebê desprotegido, e a convida para fazer o mesmo. Hannah deita e ele…bom, ele abre o zíper e coloca o pênis para fora.

Hannah, com o pênis do escritor jogado na sua perna, estende a mão em um impulso e pega nele. Quando percebe o que fez, entra em pânico.

E como ela falaria sobre aquilo? Como a gente faz para explicar ? Como dizer que na hora, mesmo ninguém tendo te obrigado, se trata de assédio? Se você entrou ali por livre e espontânea vontade, resolveu partilhar um momento com alguém e acabou fazendo algo que não queria fazer…Oras, é sua culpa!

É como uma redoma que só você se encontra e percebe depois, quando tudo parece estar bem mas ficou alguma coisa ali, igual um hematoma que surge no  braço e você não tem ideia de como foi que aconteceu.  O que resta fazer então? Como explicar de onde veio o hematoma sendo que nem você sabe? Então ficamos ali, presas àquele momento para sempre.

American Bitch, enquanto questiona o tal do consentimento, desafia com o queixo erguido esses homens que estão ali, conscientemente ou não, abusando do seu carisma e do seu poder, criando situações tão cinzas que não há cartela de Pantone que mude.

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Problematizando os filmes do John Hughes
March 04, 2017 - Tags: Arte, Cinema, Devaneios, Textos

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Problematizar John  Hughes talvez seja a coisa mais difícil que tenha que fazer. Eu admiro muito seu trabalho como roteirista e diretor. Ele foi capaz de entender a alma jovem mesmo já tendo passado da adolescência, e por meio dos seus filmes se comunicava com adolescentes que tinham seus medos e dramas desconsiderados apenas por terem 16 anos. Filmes como O Clube dos Cinco fala de como a sociedade é cruel, separando pessoas que poderiam vir a ser amigas, mas que, devido as panelinhas, não se conhecem, não mostram seus verdadeiros lados. Curtindo a Vida adoidado dramatiza um adolescente que quer só aproveitar a vida, mas tem uma grande mensagem – se você não sabe qual é, sugiro assistir o filme novamente .

Acontece que fica difícil ver tais filmes hoje em dia, quando você já tem uma visão mais apurada de falas machistas e/ou sexistas. Não creio que John tenha sido de fato machista, as coisas em 1980 eram muito diferentes de hoje, falas que possuíam nos filmes de antigamente jamais entrariam nos de hoje em dia. Tudo era mais jogado na época. Se feitos atualmente, John Hughes provavelmente reescreveria tudo. Além de já ter feito personagens femininas fortíssimas para os filmes da época, tenho certeza de que hoje as faria ainda mais fortes.

Mas, como já citado aí em cima, coça os dedos e a boca para não falar nem escrever sobre algumas situações nesses filmes que tanto amo. É por isso que aqui estou, com pesar, apontando algumas das vezes em que John Hughes foi machista e eu só percebi agora.

 

Sixteen Candles – Gatinhas e Gatões

1 . No baile da escola, o personagem Nerd (sim, ele não tem nome), inferniza a protagonista Samantha para ficar com ele. Depois de ver os dois conversando, o galã e amor platônico de Samantha, Jake, pergunta para o Nerd se ele a conhecia. “Sim. Por que?  Ela é sua?!” diz o garoto em um tom desesperado de perdão, ao que Jake responde que não.

Usarei o Raio problematizador pra facilitar sua vida caso não tenha visto nada demais nessa fala: se Jake falasse que Samantha era “dele” o Nerd iria parar de atazaná-la, mas apenas e exclusivamente porque Jake aclamaria ser  o “dono dela” (bandeira vermelha I). Porém, como a garota ainda não “pertencia a ninguém” OK continuar fazer da vida dela um inferno (bandeira vermelha II) e assim ele o faz pelo baile inteiro.

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2. Depois de um festão na sua casa, Jake desabafa para o Nerd que não está feliz  namorando a garota mais popular da escola e que talvez a protagonista Samantha seja uma escolha bem melhor. É quando ele olha para o Nerd e diz “Eu tenho uma namorada  desmaiada na minha cama, poderia violá-la de 10 maneiras diferentes agora, mas não quero”. Depois ele completa dizendo que tudo que sua namorada  quer é sexo e festa. Entendemos o que Jake quis dizer, mas BANDEIRA VERMELHA! Foi uma fala muito infeliz,  Hughes.

3. Depois do desabafo, Jake precisa se livrar da namorada bêbada e desmaiada. Como é um namorado maravilhoso – só que não – ele entrega a garota para o Nerd e até empresta o carrão do seu pai para o garoto ficar mais feliz.

Ao “dar a namorada” para o Nerd levar até a casa dela, Jake fala para ele se divertir com ela. A garota está desmaiada, com um cara que não conhece e ele permite que o rapazinho nerd se “divirta” com ela. Entendo que a garota é superficial e chata, mas ela ainda é um ser humano, não é mesmo, Jake? Dispensa raio problematizador.

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The Breakfast Club – O Clube dos Cinco

4. Quando os cinco adolescentes estão tendo o diálogo mais profundo do filme ( aliás, muito bem feito, escrito e desenvolvido),  todo mundo fica enchendo o saco da personagem popular, Claire, para ela falar se já tinha transado ou não. A seguinte fala da personagem Allison pode ser vista de duas maneiras:

“Bom, é uma faca de dois gumes, não é? Se você transou vão te chamar de vadia, se não transou é puritana. É uma pegadinha”.

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Allison pode tanto estar problematizando a injustiça que é isso ou não. De fato é uma fala tão real que funciona até hoje. Se você não transar é frígida, se transar é vadia. Nada que a mulher faz está correto. Excelente Hughes apontar isso em um filme adolescente, mas poderia ser mais desenvolvido, pois se Alisson estivesse problematizando só pareceu que ela estava acusando Claire do tipo “se você fez é vadia, se não é puritana. Se vira com isso aí e responde logo se já transou ou não!”.

5. Aparentemente  todo o  grupo pega Claire para cristo. No mesmo diálogo, logo após Alisson dizer que fazer sexo ou não fazer é uma pegadinha, ela pergunta para Claire se ela é uma provocadora, e Claire pede para todo mundo deixar esse assunto para lá, ao que o atleta Andrew diz:

“Você é uma provocadora e sabe disso. Todas as garotas são”.

Então o malandrão do filme, John Bender, entra na conversa também:

Fala logo, você é uma provocadora”.

“Eu não sou provocadora” – rebate Claire.

John insiste.

“Claro que é. Você mesma disse. Sexo é sua arma, você mesma disse. Você usa para conseguir respeito”.

“Não, eu nunca disse isso. Ela (Allison) destorceu minhas palavras.”

John, não contente, insiste em perguntar novamente.

“Para que você usa então?!”

“Eu não uso para nada. Ponto final!”

“Ah, entendi. Então você é clinicamente ou psicologicamente frígida?” – finaliza John.

Todos ficam acusando Claire de ser uma provocadora porque: 1) Todas as mulheres são (BANDEIRA VERMELHA! Aparentemente nós mulheres saímos por aí provocando tudo e todos e nem nos damos conta disso. Agora sim entendi porque somos estupradas) e 2) Ela não faz sexo, então usa isso para ter poder sobre os homens. Ou seja, para eles, Claire não sair dando pra todos os caras é porque ela considera sexo – ou a falta dele – uma forma de poder e usa isso muito calculado friamente a seu favor ( super bandeira vermelha!). Por fim, 3) Depois de admitir que Claire não usa o sexo para conseguir o que quer (seja fazendo ou não), John Bender a chama de frígida. Se não viu problema aí, volte para a casa 4.

 

6. John Bender assediou Claire desconfortavelmente ao longo do filme inteiro e, mesmo assim, a garota o beijou no final do filme.

Mas hein? Vez ou outra eu consigo interpretar isso da seguinte forma: bom, ela viu que ele era um babaca por ter uma vida realmente difícil. Debaixo dessa camada estereotipada de bad boy ele é uma pessoa legal e boa e ela pensou estar beijando essa camada. Entendo que, talvez, o intuito de John Hughes tenha sido quebrar estereótipos fazendo a popular certinha ficar com o malandrão, mas é um pouco difícil não se incomodar com isso no final das contas.

 

Agora, pausa para uma observação sobre o personagem John Bender

Já vi muitos textos que fazem de John o principal alvo de problematização de O Clube dos Cinco, mas  na verdade John não precisa ser problematizado pois o personagem foi feito exatamente para ser o problema.   O bad boy – que não larga do pé da personagem popular Claire um minuto – a assedia, a faz se sentir menor e envergonhada por inúmeros motivos, mas ele não é um grande problema no filme pelo mesmo motivo que não critico um filme que possui um estuprador como personagem. Se o papel do personagem estuprador é estuprar, como irei me incomodar com isso? Se vejo um filme de terror onde o monstro mata não faz sentindo achar ruim o monstro ser um assassino.

Não sei se me fiz entender bem, mas é o seguinte: John é um babaca, machista, com problemas mentais e comportamentais que foram expostos no filme. Ele está ali para ser um babaca mesmo, por essa razão não há motivo em problematizar suas ações, uma vez que são bem explícitas. O personagem é um babaca. Ponto. Aceite suas babaquices ou só veja filmes com pessoas bondosas. Caras como Bender tem aos montes no mundo, por isso continuaremos a ver filmes cheios deles.

Além de tudo isso, John Bender é um personagem necessário pois, se você ver o filme novamente, vai notar que se não fosse ele os personagens não iriam interagir. Sendo quem era,  fez todos se unirem contra ele, depois reclamarem dele e até causar briga entre eles mesmos. Portanto, John infelizmente foi um elemento necessário. Ele agitou as ondas da interação no roteiro. Sim, defendo Bender, mesmo, de fato, ele tendo assediado muito Claire. Algumas situações são desconfortáveis de assistir estando eu do ponto de vista da garota.

 

7. Vem a parte que mais me incomoda, pode parecer besta depois de tudo isso, mas é o seguinte: temos a personagem Allison que é a esquisitona do filme. Ninguém olha para ela com admiração, só repulsa. Mesmo sendo bonita para os padrões, o fato de ela falar o que fala e se vestir do jeito que veste a torna “inamorável”.

Mas, veja só, logo depois de Claire oferecer um make over para a garota (cena fofa, aliás). O esportista Andrew parece só reparar nela depois que essa repaginação acontece.

Andrew diz que ela está bonita, mas fica claro que é porque agora ela está como todas as outras garotas da escola. Feminina, frufru, normal. E assim, sem se incomodar com o fato de que o garoto só foi olhar para ela porque ela trocou de roupa,  Allison cai no papo e fica com ele. Shipo?Shipo. Mas Jonh Hughes poderia quebrar estereótipos – que é exatamente sobre o que o filme fala – deixando a “esquisita” continuar esquisita e mesmo assim ficar com o atleta. Isso sim seria maravilhoso.

Pretty in Pink – A Garota de Rosa Shocking

8. A protagonista Andie, nada popular, vitima de bullying e bolsista na escola,  começa a sair com Blane um dos garotos ricos e populares. O filme gira em torno de ela ter vergonha de ser pobre e ele rico e ela começar a entrar no ciclo de amizades que, junto com seus amigos, tanto repudiava. Acontece que  depois de promessas e falas fofas em que jurava não ligar para status e demonstrar que se importava, Blane  deixa  Andie na mão.

Depois de a convidá-la para o baile e a garota se encher de expectativas (como acontece com todas as protagonistas de adolescentes em filmes americanos) Blane a desconvida de última hora e termina tudo  puramente por não aguentar a pressão dos amigos. Amigos que chamavam Andie de lixo que servia apenas para transar só por ser pobre.

A garota não se deixa abalar. Mesmo assim faz seu lindo vestido rosa e vai sozinha para o baile de formatura enfrentar todos aqueles que a odeiam. Ótima mensagem, John Hughes…Mas…

Quando finalmente você pensa que veria um filme onde a protagonista fica feliz e sozinha, o lindão reaparece, pede desculpas e ela o aceita de volta. Mesmo depois de a ter humilhado e “desistido” dela. Ah, não né!?

No meu final alternativo Andie ficou sozinha, segura e feliz e seu melhor amigo ( não citado nesse post) parou de dar em cima dela e passou a vê-la apenas como amiga.

Essas são algumas coisas que, ao assistir recentemente, me incomodaram. É engraçado porque quando incomoda não tem como fugir da problematização. Então parei, pensei “por que senti essa alfinetada aqui? Ah, foi por isso” e cheguei nessas conclusões. John Hughes não era um visionário, apenas refletia uma geração nos seus filmes, sei disso. Esses filmes cumprem bem o papel de entreter e de quebra passa mensagens, é por essa razão que, mesmo com tais pontos incômodos, continuarei amando todos.

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Please Like Me – a série cool mais bem feita que você respeita
February 04, 2017 - Tags: Séries

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Josh é um rapaz no começo da faixa dos 20 anos que levava uma vida OK. Tinha uma namorada, fazia faculdade, morava com o seu melhor amigo  e era bancado pelo pai. Mas essa construção de final feliz não dura nem os primeiros minutos do primeiro episódio de Please Like Me. Tudo muda quando Claire, namorada de Josh, termina o namoro dizendo que ele era gay. Em seguida Josh descobre que sua mãe está internada em um hospital depois de tentar suicídio e, surpresa surpresa, ele fica com o primeiro menino da sua vida.

Please Like Me é uma série australiana que estreou em 2013, dirigida e roteirizada pelo protagonista Joshua Michael Thomas que mixa muito bem os elementos de drama e comédia, gerando um dos gêneros do cinema e da TV mais interessantes (e meu preferido): a “dramedia”. A série conta a história de Josh e seus relacionamentos com o pai, a ex, o melhor amigo, namorados, homossexualidade, homofobia e a mãe com problemas mentais.

É surpreendente como a cada episódio você não sabe se vai se sentir feliz ou melancólico. Joshua transita por romance, piadas de “humor inglês” e assuntos sérios como aborto, suicídio, depressão e ansiedade. O mais estranho é que o protagonista em si não é lá muito carismático, Josh parece receber tudo o que acontece a sua volta de maneira um pouco alheia e indiferente. Ele não dramatiza a situação de sua mãe estar doente nem de ter relações com um menino de sérios problemas psicológicos.

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Além disso, ele não é bonito e não consegue manter relações saudáveis com nenhum rapaz mas, de alguma forma, leva tudo com apatia  e a auto estima intacta e em certos momentos isso é irritante. Mesmo assim a série tem um clima magnético que deixa quase impossível eu não fazer maratona, mesmo com episódios seriamente pesados.

O que também é interessante em Please Like Me é ver o relacionamento que Josh tem com os pais. O criador mostra com humor e leveza as dificuldades dessa relação. Outro tema muito abordado é a dificuldade em achar o “tal do amor”, drogas, estabilização financeira e viver com a solidão que, já nessa fase, começa a se tornar parte da vida.

PLEASE LIKE ME

Fui ver a série pensando que seria uma comédia homossexual sem tensão, me surpreendi com os temas e profundidade de cada assunto, mas positivamente. A série preenche uma lacuna deficiente no baú das séries atuais e é isso que a faz ser genial e original.  Se está transitando pela Netflix sem saber o que ver, super recomendo.

 

 

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The Echo Friendly – o resultado de um xaveco bem sucedido
January 22, 2017 - Tags: Arte, Música

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Em 2009 Jake  estava produzindo um filme com seu amigo e precisava de uma atriz forte para interpretar uma personagem feminista. Foi quando lhe recomendaram Shannon, uma moça que ele já conhecia da época da escola. A escolha foi certeira e ela foi contratada para o filme. Rapaz sagaz, Jake se interessou por Shannon e um dia, de brincadeira, sugeriu que eles tocassem juntos, inclusive já tinha até uma música pronta para ela cantar. O que era mentira, já que Jake tinha metade de uma música, mas aquela desculpa seria o suficiente para fazê-la ir até sua casa.

Em 2010  o novo casal começou a compor e tocar  junto. Assim nasceu a The Echo Friendly, dupla americana que teve seu 1º single na trilha sonora do seriado da HBO, Girls. A  recepção foi positiva e eles lançaram o 1º álbum, Love Panic, em 2014. De lá para cá, ficaram amigos, começaram a namorar, terminaram e voltaram a namorar de novo.

The Echo Friendly mixa garage rock, 90’s rock e pitadas de pós-punk. Sites a fora intitulam a dupla de indie pop/rock, porém o problema de falar isso é que “indie” passou a ser uma característica de música que você não consegue classificar.  Não que a música deva ser classificada, rótulos nem sempre são necessários e The Echo Friendly não precisa, acredito. A dupla faz um som sincero e simples, como se te convidassem para o apê deles e falassem “Olha o som que a gente fez, senta aí no carpete, pega uma breja e ouça”.

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Para Jake compor a música que entrou em Girls ele só teve que chegar em casa bravo  por causa da namorada e companheira de banda, Shannon, e pensar em escrever a coisa mais idiota que  poderia escrever. Algo que ninguém iria ouvir e que ele sabia ser “muito imbecil”. Assim saiu Same Mistakes.

Eu nunca cresci

Parece que nunca vou

Meus amigos são todos adultos

Ainda sou uma adolescente

Eu não mudei nem um pouco

Eu ainda não superei

Eu cometo os mesmos erros”

As letras são narrativas singelas e verdadeiras sobre a vida, na maior parte das vezes insights da fase adulta e relacionamentos. São frustrações que quando se ouve, e percebe que não é apenas você que tem, tranquilizam o coração e te fazem curtir a música ainda mais. É o que chamo carinhosamente de “efeito Smiths”, essa identificação emocional com a letra, que não fala apenas de coração partido, mas também das complicações, algumas, ingênuas, e outras nem tanto, da nossa existência.

Na onda de duplas de rock, indico The Echo Friendly para quem está a fim de ouvir algo parecido com The XX, porém com melodia – desculpe, não podia deixar a piada escapar.

Mas Same Mistakes não é a melhor do álbum,  minhas preferidas de Love Panic são essas aí. Bote os fones e divirta-se.

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Diabinhos
January 08, 2017 - Tags: Era para ser uma crônica, Textos

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Dia desses eu tirei os meus dentes do siso. Pensei que seria um movimento estratégico, o único buco-maxilo do meu convênio só atendia de segunda-feira e as coisas no meu trabalho estavam mais calmas. Ou seja, ficaria em casa de atestado médico por  três ou quatro dias sem peso na consciência. Seriam dias de descanso, iria dormir bem, colocar a leitura em dia, ver séries e descansar. Voltaria no final da semana para o trabalho, renovada e feliz, mas com a inevitável vontade de ficar mais uns diazinhos em casa. Tudo certo. Certo? Não.

No segundo dia eu já não queria mais ficar em casa.  Primeiro porque me esqueci das dores horrendas que tirar dentes provoca, segundo porque não conseguia comer o que eu queria – que é uma das coisas legais ao se fazer em casa. Tipo ver filme do Woody Allen comendo pipoca. Pipoca sem 3 dentes? Jamé – e terceiro que os remédios começaram a agredir meu estômago e eu não dormi direito porque de 3 em 3 horas tinha ataque de queimação. Foram dias horrendos.

A culpa, porém, não foi apenas da dor, não comer pipoca nem dormir direito, mas sim de que eu tive dias completamente improdutivos. Dias em que ler não me deixava feliz, ver TV muito menos e dormir sem chance porque a ansiedade havia me pegado de jeito. Foi quando no quarto e último dia de atestado eu me peguei pensando naquilo que jamais pensei que pensaria: “não vejo a hora de ficar bem para poder voltar para o trabalho”. É. Virei desses adultos.

Deixe-me explicar o problema dessa frase: para mim existem dois tipos de pessoas, aquelas que durante as férias conseguem ficar em casa de boa, lendo, bebendo vinho, comendo, trocando o dia pela noite etc.,  e  as que ficam malucas se não forem viajar. Essas começam a criar tarefas desnecessárias apenas para sentir que estão fazendo alguma coisa. Eu nunca entendi essas pessoas, eu sempre (repito: sempre!) teria o que fazer de divertido em casa. Mas eis que me enganei.

Durante meus dias de repouso e cara inchada, não conseguia fazer as coisas que normalmente seriam suficientes para preencher minha cabeça. Tais coisas passaram a não ser suficientes para tirar de foco os diabinhos trabalhando (para quem não entendeu: “cabeça vazia, oficina do diabo”,  logo imagino que nessa oficina tem vários diabinhos trabalhando. Então eu preciso fazer algo para que os diabinhos não trabalhem). Ler não mandava os diabinhos descansarem, dormir muito menos e assim eles não me deixavam em paz se eu não fizesse algo que não fosse produtivo. Coisas do tipo revisar meus textos, lavar a lousa, organizar minha pasta de fotos no computador.

Seria isso sinal de que a vida pessoal está tão merda que  não vejo a hora de voltar para a profissional? Seria uma revelação e tanto. De qualquer maneira, tudo o que sei é que a partir de agora vou poder erguer o queixo como todo mundo e falar “Ai. Eu fico louca se ficar em casa”.  Ótimo.

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Balanço de 2016: os melhores e piores
December 14, 2016 - Tags: Arte, Cinema, Cotidiano, Eventos, Livros, Música

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Esse ano não vai ter texto sobre quão bosta foi 2016. A gente sabe de tudo: Golpe ( ou se preferir um termo mais constitucional: conspiração da oposição), Temer, estudantes desaparecidos, militantes censurados, Trump…

Então fechando os olhos e destrancando um pouco a cabeça, vou  focar no que foi bonzinho esse ano. O que me fez levantar da cama e não desistir de tudo, meus bombozinhos-surpresa que deixaram a vida menos bosta: os melhores de 2016 (e alguns bostas também, pra você já não perder seu tempo ano que vem).

MÚSICA

Por que não começar com uma cantora que eu comecei metendo o pau a beça no início de 2016 e terminei o ano ouvindo ela pra melhorar minha autoestima? Carol Konka. Por que eu odiava sem nem tê-la ouvido direito? Porque eu pensei que era Funk. E funk pra mim, queridos, não desce. Não dá. Mas eis que um dia descubro que a Karol não é funk (rap, com pop, hip hop, black, reggae e uma pitada bem inha de funk carioca, talvez) e o mais legal: suas letras são ótimas, principalmente se és una chica e está naquela fase lamacenta. Ouvir Karol Conka me fez dar um up. Pelo jeito, É o Poder.

Ouvir coisa brasileira dá uma satisfação enorme. Os brasileiros estão fazendo coisas ótimas e tem para todos os gostos. Boogarins surgiu na onda do “new psicodelic”, e sabe aquele som que te leva pra outro nível no cosmos? Pois é. Trilha pra praia, para descansar a alma em meio ao caos todo que foi esse ano.

Mais uma da série “torcia o nariz pra caralho e agora amo”: Arcade Fire. Não lembro o que me fez parar para escutá-los, mas agora a banda não sai da minha playlist.

Como teve outras coisas que fizeram a trilha sonora do meu 2016, segue uma playlist não só das que descobri, mas que embalaram vários momentos do meu ano.

A pior coisa que pude escutar esse ano foi sem dúvida Sorry do Justin Bieber. Não porque é do Justin, mas sim porque eu gostei.

LIVROS

Ia terminar o ano frustradíssima comigo mesma porque não li metade do que gostaria de ler. Mas aí vai uma dica para você que também achou que leu pouco esse ano: pegue os livros que leu e os empilhe. Vai fazer pelo menos um voluminho – no meu caso bem inho – e você se sentirá menos lixo.

Essa é minha vergonhosa pilha de 2016:

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Quem vai ficar com Morrissey : ***
Antes do Baile Verde: *****
Circo Invisível : ****
Wicked: ***
Tá todo mundo mal: ***
ABC de Fernando Pessoa: ***
Gemma Bovery: ****
Deadpool – Meus queridos presidentes: ***

One Man Guy: **

Sim, inclui 2 quadrinhos e me orgulho muito disso! Dessa mixaria, os dois melhores – não só do ano, mas que viraram meus preferidos da vida – foram “Antes do Baile Verde”, da Lygia Fagundes Telles e “Circo Invisível” da Jennifer Egan. Fiz resenha do Circo Invisível no Garotas Rosa Choque, e o Antes do Baile Verde gostei tanto que não ousarei resenhar. Quem gosta de contos e dramas da vida vai amar, sem dúvida. É profundo, delicado e amor. Além disso, nada como incluir uma escritorA  brasileirA na prateleira, né?

Dentre esses o livro mais ruim é o One Man Guy. Não que seja ruim de fato, mas ele tinha mais potencial.

SÉRIES

Esse ano finalmente terminei de ver minha série favorita da vida que me moldou como ser humano: Gilmore Girls. Ela só não  entra na lista de 2016 porque é da vida toda, não apenas desse ano.

A melhor? Não precisa nem dizer… Stranger Things. A série é tão boa que não duvido que a Netflix a fez baseada nos tais algorítimos de audiência. Tem todos os elementos que produziram séries e filmes de sucesso: crianças, anos 80, bebê fofo, sobrenatural, romance juvenil, conspiração e Joy Division na trilha sonora.  Perfeita.

A pior: Penny Dreadful, claro. Eu assisti tudo básica e exclusivamente pela Eva LOVE Green. Porque só isso para me ajudar a engolir o roteiro cheio de furos.

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FILMES

2016 foi fraquíssimo de filmes… Pena. Aceito recomendações.

Pior: Como eu Era antes de você (odiei tanto que fiz um texto inteiro sobre ele. Quer ler e ficar com raiva? Vá Aqui)

Melhor: A Bruxa. Em terra de sustos baratos, A Bruxa é obra prima.

Mas não adianta, como potterhead que sou, o que realmente aqueceu meu coração foi Animais Fantásticos e Onde Habitam.

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EVENTOS

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SP na Rua reúne coletivos, núcleos e artistas nas ruas do centro antigo da cidade. Foi meu 1º ano e foi demais. Agora nós, paulistanos, corremos o risco de não termos mais, graças aos paulistascoxaslindos.

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Festa de 25 anos com tema anos 80 –  Digamos que a comemoração dos meus 25 anos provou que sou capaz de bancar uma festa sozinha, que os anos 80 são demais mesmo e que, claro, eu sei dar uma festa.

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Show do New Order – É de outro mundo ver uma banda antiga ao vivo. Ainda mais o New Order, que surgiu de uma banda que fez parte (se não iniciou) um cenário musical totalmente novo, a Joy Division,  e depois criou outro para a música eletrônica. Foi caro, mas muito divertido.

Marcelo Jeneci e os meninos do The Outs também embalaram alguns shows divertidos ao longo de 2016.

***

Muitas das metas que transferi de 2015 para 2016 irão também para 2017, mas em meio ao caos que anda o universo, acredito que comprar uma câmera profissional não seja uma das metas mais importantes. De verdade, se o ano for acabar em 2017 que seja da forma descrita pela Bíblia, com dragões de várias cabeças e mares se abrindo. Será muito melhor do que desse jeito que já está acontecendo. Rezemos. Um feliz ano novo para nós! Ou um ano novo menos pior possível…

 

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