Meus filhos não vão ouvir The Cure
May 29, 2017 - Tags: Era para ser uma crônica, Textos

 

 

 

Quando tinha 12 anos, depois da transição Xuxa – Hanson – Thalia – Foo Fighters – Red Hot Chilli Peppers, fui introduzida à uma vida de sentimentalismo, e antes fosse sentimentalismo Celine Dion. Não. Estou falando do sentimentalismo desesperador, aquele que faz a gente querer dançar com a parede usando sobretudo e bebendo vinho quente em pleno sol do meio dia.  Cresci e me desenvolvi de criança para adolescente ouvindo Theatre of Tragedy, Lacuna Coil, Tristania, Lacrimosa e indo à baladinhas góticas sem nem ter peito. Meu mundo era pentagrama, saias longas, roupas e maquiagem pretas.

Depois disso, aos quinze, veio a fase Glam  Rock seguida da liberdade, que consistia no lema “posso ouvir o que quiser, não preciso ser nada. Sou eu.  E eu ouço Kelly Clarkson E Placebo!”. Mas a liberdade não serviu de muita coisa, porque já era tarde. O sofrimento que todo aquele melodrama que ouvi no passado já estava impregnado em mim, ou seja, a trilha sonora da minha adolescência teve um papel fundamental no desenvolvimento da minha essência emocional.

Um dia eu dei uma festa de Halloween aqui em casa, com família e amigos, e a trilha sonora foi de Karol Conka a The Cure. Acontece que enquanto os pops soavam a solta, minhas priminhas entre 7 e 12 anos dançavam alegres na garagem, mas quando a voz do Robert Smith  começou, minha prima Sophia de 8 anos, veio até mim, a DJ, e com as sobrancelhas caídas perguntou:

“Que música é essa?”

“É The Cure, Sophia. Gostou?” eu respondi animada, a música havia chamado a atenção dela, então vai ver ela tinha tendências para um bom gosto musical.

Mas Sophia simplesmente franziu mais a testa, fez uma careta triste e respondeu:

“É uma música muito estranha” – e saiu.

Naquele momento eu soube que jamais faria Sophia ouvir The Cure. Se ela, com aquela idade, em poucos segundos ouvindo a música, já conseguiu sentir o estranhamento que um pós-punk de qualidade poderia lhe causar na alma, o que crescer com aquilo na playlist faria com sua mente ao longo dos anos? Pobrezinha.

Pensando nesse episódio eu desenvolvi a seguinte teoria:  as músicas têm um poder de ativar sentimentos ocultos na sua mente. E não estou dizendo em provocar sensações, mas sim em ativar áreas no seu cérebro que, se não tivesse escutado certa música, não seriam ativadas.  O problema é que uma vez ativada, não tem volta. Principalmente se ela foi ativa em uma fase da vida em que estamos nos formando.

Faz um tempo eu vi um vídeo do Tavião (do Rolê Gourmet) no canal do Youtube The Cookie Collector falando sobre os cinco discos que ele mais gostava. A tag do vídeo era ele explicar o que esses álbuns significavam para ele. Na lista estava um álbum do Radiohead e Tavião explicou que ele ouviu muito o CD quando era adolescente e passava por uma fase muito ruim da vida dele. Acontece com todo mundo, ninguém está triste e quer ouvir música feliz, mas o que Tavião falou ficou na minha cabeça: basicamente o disco alimentou ainda mais aquela fase ruim da vida dele. Com a melodia e as letras do Radiohead constantemente no seu rádio ele desenvolveu uma visão melancólica sobre a vida e nunca mais conseguiu se recuperar disso. Nas palavras dele – até onde me lembro – ele foi tão infeliz naquela época que tornou impossível voltar a ser feliz como antes.

Eu sei, é uma linha de pensamento muito pesada e pessimista.  Parece muita loucura, mas se pensar bem, não é.  A gente vai se tornando aquilo que consumimos ao longo da vida. Absorvemos os filmes, os livros, as pessoas e as músicas que ouvimos. Cedo ou tarde, consumir aquela  música te faz pensar e sentir coisas que você poderia não vir a sentir e pensar se não a tivesse consumido.

Pode ser o contrário também, a pessoa já ter tendências melancólicas e acabar se atraindo por músicas no mesmo estilo, mas não vamos tirar todo o crédito dessa minha teoria altamente bem embasada, certo?

No meu caso já não adianta mais fugir. Na minha playlist os favoritos são os tristes. Os donos das melodias que me fazem tão melancólica que chego a ficar feliz. De qualquer forma não vou mostrar Radiohead nem Smiths para meus filhos. Vou encher o celular deles de Taylor Swift e Ariana. A coisa mais triste que eles escutarão vai ser I just cant stop loving you do Michael Jackson. Isso porque nem triste é, apenas romântica. Mas mesmo assim, se pensarmos bem, pode gerar uma certa dorzinha no coração.

 

 

Imagem retirada de petofpoe.deviantart.com

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Áreas cinzas e o desequilíbrio do poder
March 27, 2017 - Tags: Era para ser uma crônica, Textos

Girls está na sua última temporada e como se houvesse guardado o melhor para o final propositalmente, Lena Dunham – criadora da série – ofereceu um episódio que causou um rebuliço no meu estômago. Terminei de assisti-lo angustiada, com algo preso na garganta, furiosa, mas principalmente triste. Tão triste que foi impossível não chorar. Fiquei com o episódio por um longo tempo na cabeça, não deixei de pensar nele por dias até tomar a decisão de vê-lo de novo para esclarecer o sentimento que me causou e finalmente entender o porquê.

O 3º episódio da 6ª e última temporada se chama American Bitch e começa quando um escritor aclamado convida a protagonista Hannah para seu apartamento. O motivo do cara é contar o seu lado da história sobre um artigo que Hannah havia escrito sobre ele. O artigo em questão trata das acusações de assédio sexual que esse autor recebeu de quatro garotas diferentes, e por causa disso ele não conseguia mais dormir, começou a fazer ­­terapia, meditação e perdeu 9 kilos.

Pensei então que Lena Dunham havia dedicado o episódio especialmente para falar sobre esses homens acusados de assédio por alguma garota, cuja história pode ser relativizada e causar um debate muito longo sobre consentimento. Assim, me aconcheguei no sofá e assisti pacientemente esse personagem se explicar e acusar Hannah de escrever um artigo sobre textos de mulheres – note bem, MULHERES – que ela nem conhecia, baseado em boatos.

Talvez esse cara tivesse razão e, assim como Hannah, o ouvi e me deixei levar. Ao longo da conversa, o personagem diz que nunca forçou ninguém a fazer sexo com ele, afinal todas as garotas que o acusaram de assédio sexual foram por livre vontade.

É engraçado, mas tudo o que ele fala começa a fazer muito sentido, no entanto a agulhinha do incômodo me espeta de leve na nuca. Já havia ouvido isso antes, a fala de que mulheres que acusaram algum homem de assédio sexual, na verdade, estavam inventando tudo. Inventaram porque sentiram-se magoadas e rejeitadas por esse homem. Então nada do que esse personagem escritor fala é novo, é um discurso muito velho: a manifestação da desconfiança. Por que devemos acreditar em universitárias que acusaram um autor famoso de forçá-las a fazer sexo oral nele?

Talvez ele esteja sendo sincero, concluo comigo. Fico quieta quando o personagem perde o controle e grita com Hannah que tudo o que ele fez foi convidar aquelas garotas para seu quarto de hotel. Onde um convite é um assédio?!

Tendo ele dito isso, Hannah cita o desequilíbrio do poder na seguinte fala:

“Estou falando da parte em que você é um escritor famoso e ela trabalha muito para receber uma migalha do que você recebe todo dia. Então você a convidou para ir ao seu quarto de hotel e o que ela deveria dizer?Não? Ela o admira. Então você tira a calça. O que ela vai fazer sem seguida?Você não entendeu. Não é que ela foi até lá para ter algo sobre o que escrever. Foi para ela sentir que existe”.

– perdão pelos possíveis erros de tradução.

Não estou falando que todas as mulheres que fazem isso são coitadas que, meu Deus, só querem a atenção de um homem que elas admiram, mas essa fala ficou muito clara para nos fazer entender a dinâmica do poder. E isso pode se aplicar em incontáveis escalas: de uma adolescente e um youtuber que ela admira – são INÚMEROS os casos de youtubers pelo mundo que constroem uma relação de poder e submissão com suas fãs, basta dar um google – , até uma garota comum com a autoestima baixa e seu ex-namorado que só queria uma transa rápida.

Por fim o escritor diz que convidar uma adulta para seu quarto sem forçá-la não é um crime. Convites não são áreas cinzas, são apenas convites.  Ah, a área cinza. Saber que nem tudo é preto ou branco, que cada um faz o que faz por certos motivos, é reconfortante,  pois todos nós temos  traumas e histórias, mas apesar de oferecer o conforto de justificar atitudes que não conseguimos explicar nem entender, a área cinza é perigosa. É perigosa porque algumas coisas que não devem ser postas lá, são. E uma dessas coisas é o assédio sexual.

Vamos lá, quem com menos de quinze anos nunca foi assediada? Nós sabemos. Sabemos que quando está acontecendo não vemos nada demais. Ficamos lá, paradas, assistindo acontecer. Pode ser só uma massagem de um professor, um velho agarrando seu braço na rua quando você tinha dez anos, seu professor de teclado acariciando suas coxas quando você acertava as notas. Situações que, se ditas em voz alta, não parecem tão graves assim, pois carinho e elogios são relativos, certo? Se tratam, afinal, de áreas cinzas.

Assim como Hannah, e talvez Lena, me descobri cansada da área cinza. Me cansei porque é por causa dela que muitas de nós não entendemos o que exatamente aconteceu, porque usamos a relativização em busca de respostas. E, às vezes, a resposta está no preto ou no branco, nunca nos dois. Às vezes nem tudo possui dois lados.

Com essa revelação feita o episódio e eu seguimos juntos… Hannah se desculpa por ter escrito o artigo agora que conhecia esse escritor melhor. Eles criam uma sintonia e afinidade quando ele deita na cama encolhido, como um bebê desprotegido, e a convida para fazer o mesmo. Hannah deita e ele…bom, ele abre o zíper e coloca o pênis para fora.

Hannah, com o pênis do escritor jogado na sua perna, estende a mão em um impulso e pega nele. Quando percebe o que fez, entra em pânico.

E como ela falaria sobre aquilo? Como a gente faz para explicar ? Como dizer que na hora, mesmo ninguém tendo te obrigado, se trata de assédio? Se você entrou ali por livre e espontânea vontade, resolveu partilhar um momento com alguém e acabou fazendo algo que não queria fazer…Oras, é sua culpa!

É como uma redoma que só você se encontra e percebe depois, quando tudo parece estar bem mas ficou alguma coisa ali, igual um hematoma que surge no  braço e você não tem ideia de como foi que aconteceu.  O que resta fazer então? Como explicar de onde veio o hematoma sendo que nem você sabe? Então ficamos ali, presas àquele momento para sempre.

American Bitch, enquanto questiona o tal do consentimento, desafia com o queixo erguido esses homens que estão ali, conscientemente ou não, abusando do seu carisma e do seu poder, criando situações tão cinzas que não há cartela de Pantone que mude.

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Diabinhos
January 08, 2017 - Tags: Era para ser uma crônica, Textos

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Dia desses eu tirei os meus dentes do siso. Pensei que seria um movimento estratégico, o único buco-maxilo do meu convênio só atendia de segunda-feira e as coisas no meu trabalho estavam mais calmas. Ou seja, ficaria em casa de atestado médico por  três ou quatro dias sem peso na consciência. Seriam dias de descanso, iria dormir bem, colocar a leitura em dia, ver séries e descansar. Voltaria no final da semana para o trabalho, renovada e feliz, mas com a inevitável vontade de ficar mais uns diazinhos em casa. Tudo certo. Certo? Não.

No segundo dia eu já não queria mais ficar em casa.  Primeiro porque me esqueci das dores horrendas que tirar dentes provoca, segundo porque não conseguia comer o que eu queria – que é uma das coisas legais ao se fazer em casa. Tipo ver filme do Woody Allen comendo pipoca. Pipoca sem 3 dentes? Jamé – e terceiro que os remédios começaram a agredir meu estômago e eu não dormi direito porque de 3 em 3 horas tinha ataque de queimação. Foram dias horrendos.

A culpa, porém, não foi apenas da dor, não comer pipoca nem dormir direito, mas sim de que eu tive dias completamente improdutivos. Dias em que ler não me deixava feliz, ver TV muito menos e dormir sem chance porque a ansiedade havia me pegado de jeito. Foi quando no quarto e último dia de atestado eu me peguei pensando naquilo que jamais pensei que pensaria: “não vejo a hora de ficar bem para poder voltar para o trabalho”. É. Virei desses adultos.

Deixe-me explicar o problema dessa frase: para mim existem dois tipos de pessoas, aquelas que durante as férias conseguem ficar em casa de boa, lendo, bebendo vinho, comendo, trocando o dia pela noite etc.,  e  as que ficam malucas se não forem viajar. Essas começam a criar tarefas desnecessárias apenas para sentir que estão fazendo alguma coisa. Eu nunca entendi essas pessoas, eu sempre (repito: sempre!) teria o que fazer de divertido em casa. Mas eis que me enganei.

Durante meus dias de repouso e cara inchada, não conseguia fazer as coisas que normalmente seriam suficientes para preencher minha cabeça. Tais coisas passaram a não ser suficientes para tirar de foco os diabinhos trabalhando (para quem não entendeu: “cabeça vazia, oficina do diabo”,  logo imagino que nessa oficina tem vários diabinhos trabalhando. Então eu preciso fazer algo para que os diabinhos não trabalhem). Ler não mandava os diabinhos descansarem, dormir muito menos e assim eles não me deixavam em paz se eu não fizesse algo que não fosse produtivo. Coisas do tipo revisar meus textos, lavar a lousa, organizar minha pasta de fotos no computador.

Seria isso sinal de que a vida pessoal está tão merda que  não vejo a hora de voltar para a profissional? Seria uma revelação e tanto. De qualquer maneira, tudo o que sei é que a partir de agora vou poder erguer o queixo como todo mundo e falar “Ai. Eu fico louca se ficar em casa”.  Ótimo.

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A desconexão
September 26, 2016 - Tags: Era para ser uma crônica, Textos

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Sou a favor de rompimentos. Acredito que quando as coisas param de funcionar por qualquer motivo que seja – ou sem motivo algum – as pessoas devem ambas seguirem seus rumos, uma sem a outra, sozinhas, alones, forever. Brincadeiras a parte, relacionamentos acabam e todo mundo vai passar por um término ou milhares, o grande problema para mim é entender e aceitar essa coisa estranha de cortar a outra pessoa da vida totalmente. Igual na música do Gotye com a Kimbra“… você não precisava me cortar. Fingir como se nunca tivesse acontecido..etc etc” recentemente constatei uma nova fase do término de um relacionamento, que vem logo em seguida das abaixo:

  1. Luto, depressão, auto estima abaixo de zero.
  2. Raiva, ódio, você quer queimar a pessoa viva e rir dela enquanto isso acontece.
  3. Parar de pensar na pessoa todos os dias e chorar apenas ocasionalmente.
  4. Sensação de liberdade. Acabou!

Acabou nada, colega, é o que você pensa. Vem a quinta fase, que é aquela em que se pode ficar com uma saudade avassaladora da pessoa, você quer saber como ela está, lembra apenas das coisas boas, os defeitos deixam de ser defeitos e você se desespera em saber que nunca mais vai poder ir ao mercado com ela comprar ingredientes para fazer macarrão com salsicha ( compra essa constituída por macarrão, molho e salsicha).Essa sim é a pior parte de um rompimento.

O fato severo não é deixar de viver um namorinho, mas sim apagar o alguém da sua vida e voltar a viver como se ele nunca tivesse limpado o cocô do seu gato ou engolido um fio do seu cabelo que caiu no prato dele. Impossível.

Quando vivemos um relacionamento a pessoa passa a ser parte da sua vida, você da dela e o mais pesado, vocês duas trocam um pedacinho de vocês mesmos entre si. Principalmente se você, assim como eu, se abre que é uma beleza. E do momento em que o relacionamento acaba de vez e você sabe que não tem volta, vem a consciência de que, sim, essa pessoa saiu da sua vida. Mas eu me pergunto: ela precisa mesmo sair da sua vida?

Há quem já tenha passado por mais de um término e diz  que sim, essa coisa de ser amigo de ex não funciona, mas também tem quem diz que é totalmente possível. Conheço quem continuou superamigo do ex mesmo depois de terminar um relacionamento e  isso é uma lição. Por que devemos somar e subtrair pessoas das nossas vidas? Da mesma forma que entraram podem permanecer, só que de outra forma.

É dificílimo crer que as pessoas realmente querem e conseguem conviver com o contraste bizarro que é o “tomo banho na sua casa” para “não quero nem saber se você está vivo”.

Essa coisa de se desconectar de alguém 100% para sempre é muito cruel. Prefiro pensar que cedo ou tarde todo mundo um dia vai se reconectar um furando a fila do pão na frente do outro.

 

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Discutir é uma arte
August 16, 2016 - Tags: Era para ser uma crônica, Textos

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Eu falei pra ele que se lembrar exatamente de como era ser adolescente nada tinha a ver com amadurecer ou não. Ele disse que sim, que quem ainda sabe como é se sentir um adolescente não amadureceu. “Então John Green e John Hughes são superimaturos, porque eles escreveram para adolescentes e sobre adolescentes de uma maneira que mostrou que eles nunca se esqueceram dos dramas da idade”, respondi.

“SIM, exatamente”

“Não” insisti. “John Hughes era maduro. Você vai me dizer que John Green chora porque não pode comprar um tênis? Claro que não! Eles só não se esqueceram da sensação de ser jovem… A vida adulta não os corrompeu”.

“Ou seja, eles não amadureceram.”

“Não… Veja bem, amadurecer…”

“Ok. Você está certa, você venceu.”

E assim ele encerrou a discussão que poderia salvar aquele encontro heteronormativo apenas para me fazer calar a boca porque ele não estava a fim de discutir. Porque, claro, ele era mais maduro que eu, então deixou eu ganhar a discussão. O problema é que não era uma questão de vencer, uma discussão é uma questão de trocar ideias e sair dela com dúvidas, resolvido ou quiçá com uma ideia diferente.

Isso é algo que vejo acontecendo frequentemente na minha vida. As pessoas acham que o fato de eu dissecar um assunto, perguntar o motivo de elas pensarem daquela maneira e tentarmos, juntos, desconstruir algo é uma briga. Não é uma briga, não é uma discussão. Eu não quero ganhar. É um debate, já ouviu falar? Supersaudável e legal.

Fico imaginando como deve ser uma conversa para essas pessoas que fogem do confronto e acham que respeitar a opinião alheia envolve não questionar:

“Gosto de filmes de heróis, mas não gosto de Batman o Cavaleiro das Trevas.”

“Não? Que estranho. Mas tudo bem, respeito sua opinião. Me dá a mãozinha e vamos ser felizes e saltitar olhando para o céu o passeio inteiro”.

No meu mundo, as coisas seriam:

“Não? Que estranho. Tem que ter alguma coisa no Batman o Cavaleiro das Trevas que você não gostou. Achou muito obscuro? Talvez você goste de piadas, tente ver mais filmes da Marvel, então. Mas se você olhar por um lado X talvez o filme fique melhor, o que você achou da trilha sonora? Da fotografia? …”

Olha que lindo – talvez nem tanto escrito porque parece um interrogatório, mas deu pra pegar a ideia geral, não deu?

Li agora no livro da Jout Jout um trecho que fala que “as pessoas querem alguém que fale o que elas já sabem”. Penso que não, porque nem sempre. Talvez as pessoas precisem de reafirmações, alguém que pense igual a elas para se sentirem seguras, mas isso não pode ser sempre. Que tipo de namoro ou amizade tediosa teríamos se pensássemos igual? Quando entraria a parte que mudaríamos de ideias, de opiniões? Nunca, se for desse jeito.

Virou frequente boys falarem que estou certa só para me fazerem calar a boca. Seja porque eles não têm argumentos ou porque acham perda de tempo ficar uma noite inteira conversando sobre o vagão rosa do metrô. Mas cansei. Hoje me rodeio de pessoas que apreciam um bom debate, uma boa discussão.

O desafio é fazer essas pessoas entenderam que não é porque quero fazê-las entender algo ou saber o motivo de ela achar certa coisa que estou brigando com elas.

A pergunta que eu e todo mundo temos que nos fazer é: vale a pena sair com quem acha isso chato? Óbvio que não. Se meus amigos ou meu possível boy não querem ouvir o que tenho para falar, acham besteira discutir ou – o pior  –  eles mesmos não tem o que falar…Beijos.

Vai rolar gritos? Sim, conversar é algo que envolve ego e exige muita aptidão para não se ofender com algo, não levar para o pessoal, saber discernir quando se trata realmente de opinião ou gosto pessoal e, principalmente, saber quando você não tem argumentos e está na hora de mudar de ideia ou estender a bandeira branca. Algumas cutucadas pessoais e irritabilidade também podem rolar, mas a discussão não vai acabar até me fazerem mudar de ideia, eu mudar a ideia de alguém ou chegarmos a concordar em discordar. Até lá quero distância de quem fala que estou certa achando que saiu por cima porque não “quer discutir isso comigo”.

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O mito da autossuficiência
July 19, 2016 - Tags: Era para ser uma crônica, Textos

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Reza a lenda que os autossuficientes ficam muito bem com eles mesmos, que não tem aplicativos de namoro nos celulares, saem sozinhos, veem filmes românticos no Netflix sem sentir carência. Reza a lenda que esses seres supremos não postam fotos no Facebook para mostrar a vida ótima que têm, não precisam da aprovação de ninguém. Se satisfazem apenas com amigos e, – meu Deus! – até mesmo sem amigos. Esses seres merecem ser estudados e claro, ovacionados por mim, que os admira tanto e espera chegar lá um dia também.

Nunca fui autossuficiente, se não estava procurando por um amorzinho estava chamando meus amigos para sair comigo porque nunca tive – e ainda não tenho – a coragem de sair sozinha por aí. No entanto, a autossufiência verdadeira que digo aqui é aquela que procuro: a de não querer querer alguém. Eu não quero querer alguém, mas não consigo. Sabe aquele sentimento de chegar em casa, ligar o Netflix e ver um filme sem um pingo de ressentimento e carência? Se sentar apenas com você e não pensar em ninguém sem se sentir um pouco sozinha sequer? Nunca tive.

Ok, para não mentir, tive momentos, frações de minutos, milésimos de segundos, um flash na verdade. O momento vem quando dou o primeiro gole de vinho branco, ligo Florence and The Machine bem alto, canto e penso “Nossa, estou sozinha e estou me divertindo!”, a plenitude me atinge por inteiro e quando  tomo consciência dela… puf! Se vai.

Conversei com algumas amigas sobre isso e elas me disseram que já tiveram essa fase, a fase de não só não querer querer alguém, mas realmente não querer alguém. Fiquei olhando atordoada para elas enquanto me diziam que realmente não queriam alguém. Não entendi e não entendo.

Minha jornada amorosa me fez crer que carência tem limite. Não dá para ficar com alguém que você não sente “a coisa”, ficar com alguém para suprir puramente a carência acaba sendo pior do que ficar sozinha. Já saí com caras que durante o encontro não parava de pensar que diabos estava fazendo ali enquanto poderia estar em casa bebendo e ouvindo Florence and the Machine. Isso é uma vitória, claro que é.

Com essa conclusão deixei de sair só por sair, sem sentir “ a coisa”. Acontece que ainda fico esperando conhecer um carinha e não quero isso. Quero poder sair sem procurar carinhas, quero só sair.

Assim sendo resolvi não procurar mais. Vitória numero 2! Mas ainda não é o suficiente, não procurar não é o suficiente para ser autossuficente. Para ser autossuficiente você precisa estar bem sozinha. E isso inclui amigos.

Amigos são uma coisa que realmente me deixa feliz. Seja fora de casa ou dentro dela, a vida fica mais colorida, com cheirinho de morango.  Saber disso me faz concluir que não sou carente só de amorzinhos, mas de pessoas. Preciso de companhia. Ou seja, há dois problemas aí.

Não conheci muitas pessoas que realmente são autossuficientes, elas são raras, na verdade não acredito nas que me dizem que são. Em sua maioria, se  não tem amigos na vida real, nem companheiros, elas apelam para as redes sociais, precisam dos likes, das fotos mostrando como a vida delas é, alguém precisa vê-las. Ou seja, é a falsa autossuficência. Isso me faz crer  que essas pessoas não existem. Você não é autossuficiente, você está. Se trata apenas de uma fase, muito curta, pra dizer a verdade. As pessoas que a alcançam acabam caindo nas graças de outras pessoas – amigos ou não – cedo ou tarde.

O dicionário informal diz que Autossuficiência “refere-se ao estado de não necessitar de qualquer ajuda, apoio ou interação de outros, para sobreviver. É por isso um tipo de autonomia”. Vamos concordar que se trata de uma utopia.

No momento tento atingir um estado autossuficente, porque eu sei que não serei para sempre e sei também que a gente precisa passar por esse estado cedo ou tarde,  querendo ou não.

 

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‘Como Eu Era Antes de Você’ me fez querer mais
June 27, 2016 - Tags: Cinema, Era para ser uma crônica

como eu era antes de voce

Acabo de voltar de uma sessão de Como Eu era Antes de Você com certo remorso por não derramar nenhuma lágrima sequer  e pelas garotas do meu lado terem chorado por elas e por mim. É com um pesar que hoje percebo que entendo as pessoas que torcem o nariz para filmes hollywoodianos de massa. Mas, veja bem, isso não quer dizer que não vou continuar gostando de Bridget Jones ou Deadpool , mas sim que existem grandes chances de  continuar saindo com a cara enrugada de uma sessão de filme mal feito, desses feitos sem um pingo de profundidade só para vender. Mas antes vamos ao que se trata: o filme citado.

Como Eu era Antes de Você é a adaptação cinematográfica do livro homônimo roteirizado pela própria autora (Jojo Moyes), que conta a história de Louise, uma garota de 26 anos que precisa ajudar os pais financeiramente e que aceita trabalhar como cuidadora do rico Will, homem de 31 anos que sofreu um acidente há 2 anos e ficou tetraplégico. A partir daí o filme fica  uma mistura de A Bela e a Fera com Tudo por Amor (aquele clássico da Sessão da Tarde no qual Julia Roberts cuida de um rapaz com câncer e acaba se apaixonando por ele).

Louise é energética, sorridente, animada e assim como se veste como uma criança de 7 anos age dessa forma, fazendo tudo com a excitação e bom humor de uma garotinha. Já Will é mau humorado, odeia conversar e no início trata Louise muito mal. Já podemos esperar então o rapaz deficiente se abrindo aos poucos com Louise e ambos mudarem um ao outro, um romance surge e, claro, tem que vir lágrimas no final. Acontece que as lágrimas não vieram pra mim.

Apesar do carisma de Emilia Clarke (Louise), a personagem não convence tão bem e os personagens do filme tem que dizer mais de uma vez que Will está sofrendo tanto ao ponto de considerar uma eutanásia. Eles precisam repetir isso tantas vezes para ver se o público acredita porque  Sam Claflin (Will) transparece muitas coisas ao interpretar o tetraplégico, mas nenhuma delas  é sofrimento. Dor, rancor e tristeza são coisas que o ator parece não ter aprendido a interpretar nas aulas de teatro. Pena.

E então os dois de apaixonam e o trágico final encerra o filme, quase implorando para chorarmos  é tudo tão superficial e previsível que flashes de sono passaram por mim o tempo todo, até fiz trança no cabelo!

Veja bem, gosto de romances e gosto de filmes hollywoodianos, mas Como Eu era Antes de Você veio para provar que não consigo engolir mais qualquer coisa.

Sempre tive raivinha daquelas pessoas que falavam mal de Harry Potter, livros da Marian Keys e uma caralhada de livros que foram feitos para públicos que não tem o hábito de ler. Eu penso que nem tudo precisa ser rebuscado e complexo para ser bom e ainda acho isso, o problema é que quando você já leu tantos livros e viu filmes com o mesmo final e a mesma trama passa a se entendiar e um belo dia você está vendo Donnie Darko por diversão e, o pior de tudo, entendendo! (a fase do entender não cheguei ainda).

Não acho que se trata de arrogância, mas sim de simplesmente passar a querer mais do que esses filmes oferecem. 

Ainda acredito que livros e filmes assim são importantes, afinal, são uma porta para filmes e livros mais “complexos”. Ninguém começa lendo com Kafka, eu por exemplo comecei por Meg Cabot e não me envergonho disso, acontece que não quero pagar por um livro nem por uma sessão de cinema e sair de lá sem sentir nada, como se não tivesse aprendido nada, com minha mente exatamente como era antes de eu ter lido ou assistido aquilo e a história daqueles personagens simplesmente se desvanecerem até eu dormir e esquecer.

 

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A vergonha por usar apps de namoro
June 13, 2016 - Tags: Era para ser uma crônica, Textos

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Vejo  muita gente que ainda acha que aplicativos e sites de namoro são motivos de vergonha. E quando digo muita, é mesmo muita. O problema não é só que essas pessoas acham que quem usa esses recursos tem que usar escondido da sociedade ( passar o menu de homens que é o Tinder enquanto está no metrô? Nem pensar!),o problema é que essas pessoas acham que esses recursos são coisas de gente desesperada.

Antes de mais nada, o que será essa gente desesperada?  Pessoas que querem encontrar alguém para namorar, casar, dar uns beijos, fazer um sexo casual? Isso é ser desesperado? Bom, na visão desse pessoal aí de cima é. Talvez porque para elas você deve permanecer sentado na sua casa, frequentar barzinhos ( balada jamais porque também é lugar de gente desesperada) e esperar que Deus lhe envie alguém que vá te proporcionar exatamente o que você quer no momento.

Já perdi a conta da quantidade de risinhos que recebi de amigos por ter meia dúzia de aplicativos e sites de namoro no celular, como se , para eles, eu estivesse correndo por aí, desesperada para  casar com qualquer um que me desse atenção. O ponto é que é justamente ao contrário, eu não quero qualquer um, e por isso devo ir a procura  mesmo, um por um, pra achar aquela pessoa que vai me dar o que eu quero no  momento.

Dia desses um amigo meu veio me dizer: “Não gosto de encontros. Só saio com a menina se for algo garantido, do contrário, prefiro que seja natural”. Mas é claro que todo mundo prefere que seja natural! Ou você acha que eu também não preferiria que minha vida fosse um romance da Jane Austen onde chega um amigo do meu primo de quarto grau, ou um novo vizinho e voalá ele é tudo o que eu sempre sonhei? Claro que sim. Só que a vida real não funciona assim não é, mesmo, fofo?

Voltando para meus coleguinhas que insistem em me olhar torto ou me julgar por ter um  encontro diferente a cada semana (isso é exagero, tá?), eu respondo: colega, e onde você espera que eu conheça pessoas?

Sempre ouço  histórias da minha mãe em sua juventude, lá nos anos 70, quando a turma do bairro dava um bailinho por semana e era assim que as pessoas se conheciam, mas hoje, bem, hoje não tem mais bailinho. Tem os clubes, no entanto.

Discordo de quem diz que clube é lugar de gente escrota. Eu não sou escrota e eu estou lá, aliás adoro estar lá. O número de pessoas inteligentes que conheci em balada ultrapassa o número de gente que conheci, sei lá,  dessa tal “forma natural”.

Eu digo, sem vergonha nenhuma, que meu primeiro namorado conheci no Orkut e meu 2º conheci pelo OK Cupid. Qual o problema nisso? Devo ser classificada como uma carente incurável que se apaixona pelo primeiro ser humano só porque não esbarrei nos meus namorados na rua e os conheci “de forma natural” ?

Duas pessoas que querem conhecer uma a outra e marcam de sair e papear não é natural?

Todo mundo está procurando por alguém. Todo mundo é humano e quer ser amado, não é assim que disse o Morrissey? Qual a vergonha em utilizar de mais um benefício que a tecnologia nos proporciona para encontrar uma pessoinha legalzinha pra bater um papinho e tomar uma cervejinha? Nenhuma.

Então eu digo, coleguinhas, parem de sentir vergonha por usar o Happen. Abram a vontade o app no meio da multidão e folheiem enquanto se está em público sim sem vergonha na cara, porque é isso que todo mundo faz na rua, nas festas, na faculdade… a diferença é só que eles não tem coragem de assumir.  E quando você achar um amorzinho, responda de peito aberto à pergunta “onde vocês se conheceram?”: Nos conhecemos no Badoo. <3

Quer algo mais romântico que isso?

 

 

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Devaneios sobre a loucura
May 11, 2016 - Tags: Era para ser uma crônica, Textos

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Tenho vergonha de gostar daquele quadrinho da Maitena Burundarena, mas é mais provável que seja um certo receio por me identificar do que vergonha de fato. Sou alterada como todas aquelas mulheres desenhadas ali, mas não chego a ser maluca como elas, senão não seria maluca, uma vez que quase todas as mulheres se identificam com os quadrinhos. Se quase todas se identificam, inclusive eu, o que significa? Que somos todas alteradas e malucas ou eu sou só normal?

Já diria o título daquele filme oitentista: De Médico e Louco Todo Mundo Tem um Pouco, e acredito que todo mundo tenha mesmo, como o Coringa disse no final daquele outro filme, a loucura é como a gravidade, tudo o que precisamos é de um empurrão. Não creio ser saudável usar a frase de um personagem como o Coringa para justificar uma teoria, mas há outra maneira de falar da loucura sem citar os loucos? Kerouac, por exemplo, ama os loucos, principalmente os que queimam, queimam, queimam como fogos de artifício.

Na vida tive a chance de ver muitos malucos na rua. Mendigos gritando com veemência para o nada e sempre quando reparava no olhar deles notava que estavam muito focados. Loucura é eu pensar que deveria mesmo haver alguma coisa ali? Afinal, ninguém poderia olhar para o nada com tanta fixação assim.

Penso que gente mais velha é tudo maluca, mas não porque perderam o controle das suas ações ou estão gritando com veemência para o nada, mas sim porque já possuem todo o controle. Sendo assim, parto da ideia de que quanto mais velhos ficamos, menos ligamos para o que os outros vão pensar e menos fazemos o que os outros esperam que a gente faça. Por isso os idosos podem parecer mais rabugentos, eles não têm que provar mais nada pra ninguém, agradar todos ou ser gentil com quem, nem de longe, merece.

Será o louco aquele que vê tanto em tanta coisa que se cansa de dissecar os detalhes só na cabeça e precisa falar e fazer? Acho que falar é como uma dança: começamos aos tropeços, recatados, pegamos o compasso e depois disso, é puro improviso. Acontece que só os loucos conseguem improvisar dentro do compasso. Mas para improvisar dentro do compasso não precisa ser maluco, precisa? Afinal, ainda se está seguindo o um-dois, um-dois-três. Maluco mesmo é o que nem o compasso usa.

Não falo muito, guardo tudo. Seria isso, finalmente, o que causa a loucura, especialmente a minha (se ela existir)? Guardamos as coisas até não caber mais e explodirmos em milhões de pedaços tão pequenos que se torna impossível de unir de novo?

Acho que posso dizer, não de maneira conclusiva e definitiva porque nada na vida é (principalmente quando o assunto é maluquice), que o louco mesmo, seja eu um ou não, é aquele que não deixa a bizarrice própria fluir. E não fluir da boca para fora (como os velhinhos ou o mendigo), mas sim pela própria mente. Alguém precisa avisar para essas pessoas que repreender pensamento não é bom. Do contrário se explode e não se junta mais. E o problema é que essa explosão não seria a mesma do Kerouac, mas sim uma outra não muito boa, que ao invés de expandir, comprime, comprime, comprime até você desaparecer.

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Paz e Pedras
April 28, 2016 - Tags: Era para ser uma crônica, Textos

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A primeira coisa a ser feita quando se chega nessa cidade é entrar em uma loja de artesanato, e é justamente na hora de ser atendida que toda a essência do lugar se resume. O dono da loja aparece de barba branca e cabelo desgrenhado, anda com os pés metidos no chinelo de couro e sujos de terra vermelha, sorri tranquilo. É assim que se percebe que a cidade é habitada por pessoas como ele, que optaram por morar ali porque em qualquer outro lugar seria enfrentar um stress desnecessário.

Aqui a mensagem é clara, não ande de salto alto nem corra, do contrário pode se estatelar no chão. Isso porque o asfalto não é asfalto, mas sim grandes blocos de pedras que foram socados na terra em níveis diferentes, com a capacidade de fazer qualquer um torcer o tornozelo. Então calce suas sandálias com fivelas e ande devagar.

Ao contrário de muitas cidades turísticas, as construções não chamam atenção nem são bonitas. Se olhar superficialmente não passam de casas de pedra, mas tudo bem, pois a beleza do lugar não fica exposta. O truque é encontra-la nas ações, nos passeios, nas árvores e montanhas que se pode ver de camarote ao atingir o topo do Cruzeiro, lugar mais alto da cidade que se assemelha a uma escadaria de pedra branca com uma cruz feiosa na extremidade, mas que dá para uma vista verde de fazer chorar.

O astro da cidade se chama Ventania, cantor cujas músicas fazem apologia às ervas mas também a vida tranquila. O cinquentão descolado e hippongo recebe os fãs na porta de casa mesmo, dá autógrafos e convida todos para seu show à noite.

Depois de comprar um colar com a pedra do meu signo e um chapéu pontudo é hora de curtir as grutas. As opções são tantas que todo mundo passa rápido por elas com medo de não dar tempo.

Sigo de carro por um caminho de terra, a poeira que sobe faz minha rinite atacar, mas logo passa quando adentro a Gruta do Sobradinho, que causa o estranho desejo de não querer mais sair de lá, permanecer debaixo da terra e esquecer a selva de pedra. Agora a única pedra que compensa pensar é aquela que eu já me preparo mentalmente para subir e pular na água gelada.

Antes mesmo de chegar na cachoeira, o barulho da água corrente ecoa pelas árvores e ansiosos apertam o passo para chegarem logo. Faço o mesmo pois também quero banhar o corpo no Véu na Noiva e renovar as energias. Não importa se não faz tanto calor e a água atinge os ossos com violência. Nada anula o prazer de nadar em águas tão limpas. Dá medo de se afogar ou cortar o pé nas pedrinhas que parecem azulejos quebrados debaixo d’agua, mas é inevitável deixar de nadar mais fundo.

Passear pela cidade quando o sol se foi é obrigatório para notar que as estrelas ainda existem. As bandas dos bares no centrinho repetem o mesmo set list e chega uma hora que fica incômodo. A opção é usar a força para ir até a Pirâmide. Morro de medo de escorregar e quando chego ao topo da casa de pedra olho para cima. O breu profundo provoca um frio na barriga e a consciência de que, mesmo quando não a enxergamos, a natureza é perfeita.

Se Minas Gerais fosse uma pessoa que trabalhou a vida inteira em uma metrópole, São Thomé das Letras seria sua aposentadoria. O momento de deitar na rede e dormir de olhos abertos. Que delícia.

 

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