Discutir é uma arte
August 16, 2016 - Tags: Era para ser uma crônica, Textos

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Eu falei pra ele que se lembrar exatamente de como era ser adolescente nada tinha a ver com amadurecer ou não. Ele disse que sim, que quem ainda sabe como é se sentir um adolescente não amadureceu. “Então John Green e John Hughes são superimaturos, porque eles escreveram para adolescentes e sobre adolescentes de uma maneira que mostrou que eles nunca se esqueceram dos dramas da idade”, respondi.

“SIM, exatamente”

“Não” insisti. “John Hughes era maduro. Você vai me dizer que John Green chora porque não pode comprar um tênis? Claro que não! Eles só não se esqueceram da sensação de ser jovem… A vida adulta não os corrompeu”.

“Ou seja, eles não amadureceram.”

“Não… Veja bem, amadurecer…”

“Ok. Você está certa, você venceu.”

E assim ele encerrou a discussão que poderia salvar aquele encontro heteronormativo apenas para me fazer calar a boca porque ele não estava a fim de discutir. Porque, claro, ele era mais maduro que eu, então deixou eu ganhar a discussão. O problema é que não era uma questão de vencer, uma discussão é uma questão de trocar ideias e sair dela com dúvidas, resolvido ou quiçá com uma ideia diferente.

Isso é algo que vejo acontecendo frequentemente na minha vida. As pessoas acham que o fato de eu dissecar um assunto, perguntar o motivo de elas pensarem daquela maneira e tentarmos, juntos, desconstruir algo é uma briga. Não é uma briga, não é uma discussão. Eu não quero ganhar. É um debate, já ouviu falar? Supersaudável e legal.

Fico imaginando como deve ser uma conversa para essas pessoas que fogem do confronto e acham que respeitar a opinião alheia envolve não questionar:

“Gosto de filmes de heróis, mas não gosto de Batman o Cavaleiro das Trevas.”

“Não? Que estranho. Mas tudo bem, respeito sua opinião. Me dá a mãozinha e vamos ser felizes e saltitar olhando para o céu o passeio inteiro”.

No meu mundo, as coisas seriam:

“Não? Que estranho. Tem que ter alguma coisa no Batman o Cavaleiro das Trevas que você não gostou. Achou muito obscuro? Talvez você goste de piadas, tente ver mais filmes da Marvel, então. Mas se você olhar por um lado X talvez o filme fique melhor, o que você achou da trilha sonora? Da fotografia? …”

Olha que lindo – talvez nem tanto escrito porque parece um interrogatório, mas deu pra pegar a ideia geral, não deu?

Li agora no livro da Jout Jout um trecho que fala que “as pessoas querem alguém que fale o que elas já sabem”. Penso que não, porque nem sempre. Talvez as pessoas precisem de reafirmações, alguém que pense igual a elas para se sentirem seguras, mas isso não pode ser sempre. Que tipo de namoro ou amizade tediosa teríamos se pensássemos igual? Quando entraria a parte que mudaríamos de ideias, de opiniões? Nunca, se for desse jeito.

Virou frequente boys falarem que estou certa só para me fazerem calar a boca. Seja porque eles não têm argumentos ou porque acham perda de tempo ficar uma noite inteira conversando sobre o vagão rosa do metrô. Mas cansei. Hoje me rodeio de pessoas que apreciam um bom debate, uma boa discussão.

O desafio é fazer essas pessoas entenderam que não é porque quero fazê-las entender algo ou saber o motivo de ela achar certa coisa que estou brigando com elas.

A pergunta que eu e todo mundo temos que nos fazer é: vale a pena sair com quem acha isso chato? Óbvio que não. Se meus amigos ou meu possível boy não querem ouvir o que tenho para falar, acham besteira discutir ou – o pior  –  eles mesmos não tem o que falar…Beijos.

Vai rolar gritos? Sim, conversar é algo que envolve ego e exige muita aptidão para não se ofender com algo, não levar para o pessoal, saber discernir quando se trata realmente de opinião ou gosto pessoal e, principalmente, saber quando você não tem argumentos e está na hora de mudar de ideia ou estender a bandeira branca. Algumas cutucadas pessoais e irritabilidade também podem rolar, mas a discussão não vai acabar até me fazerem mudar de ideia, eu mudar a ideia de alguém ou chegarmos a concordar em discordar. Até lá quero distância de quem fala que estou certa achando que saiu por cima porque não “quer discutir isso comigo”.

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O precipício do flerte
July 27, 2016 - Tags: Devaneios, Textos

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Minha parte preferida do flerte é quando se está na pontinha do precipício. Quando se sabe que vai ter que pular e a outra pessoa está do outro lado, em outra pedra, você só não sabe se ela quer tanto pular como você, mas percebe que ela está com um pé na frente do outro pronta para pegar impulso.

Exemplo é essa cena que se repete, vira e mexe,  na minha cabeça:
é uma festa, eu não sou amiga do dono da festa, mas conheço alguém que conhece o dono. Estou bem naquele dia, só quero rir com meus amigos e a festa está com aquele pó de pirlimpimpim no ar que agora são raros, não se encontra em qualquer baladinha, não.

Alguém me abandonou e estou parada, sem ficar pensando se tem alguém me olhando ou em fazer pose, só ali parada segurado meu copo vermelho de festa americana. E aí um grupo na minha frente se mexe, um pessoal sai e a pessoa surge no meu campo de visão, bem de frente pra mim e já olhando na minha direção como se soubesse que eu estaria ali. Eu olho para ela, ela sorri sem graça. A gente nunca ficou, mas a gente sabe também que se não for ali não vai ser mais.

Então eu  me melo de medo, fico parada porque nunca faço nada. E a pessoa vem até mim e puxa um papo ridículo e me dá calafrios só de me cumprimentar com um beijinho no rosto.

Mas a parte do beijinho não importa, ela é depois da melhor parte, o precipício. O precipício mesmo é o momento em que a gente – eu e a pessoa – se vê no mesmo lugar, solteiros, bêbados, nos divertindo a beça e com alguns passinhos nos separando.

A pessoa pode pular ou não, eu posso beber mais pra criar coragem e acabar perdendo a chance ou não. Mas o que importa é estarmos separados, esse momento no qual cada um ainda está no seu próprio precipício. Eu vivo para esses momentos porque depois deles é só queda.

 

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O mito da autossuficiência
July 19, 2016 - Tags: Era para ser uma crônica, Textos

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Reza a lenda que os autossuficientes ficam muito bem com eles mesmos, que não tem aplicativos de namoro nos celulares, saem sozinhos, veem filmes românticos no Netflix sem sentir carência. Reza a lenda que esses seres supremos não postam fotos no Facebook para mostrar a vida ótima que têm, não precisam da aprovação de ninguém. Se satisfazem apenas com amigos e, – meu Deus! – até mesmo sem amigos. Esses seres merecem ser estudados e claro, ovacionados por mim, que os admira tanto e espera chegar lá um dia também.

Nunca fui autossuficiente, se não estava procurando por um amorzinho estava chamando meus amigos para sair comigo porque nunca tive – e ainda não tenho – a coragem de sair sozinha por aí. No entanto, a autossufiência verdadeira que digo aqui é aquela que procuro: a de não querer querer alguém. Eu não quero querer alguém, mas não consigo. Sabe aquele sentimento de chegar em casa, ligar o Netflix e ver um filme sem um pingo de ressentimento e carência? Se sentar apenas com você e não pensar em ninguém sem se sentir um pouco sozinha sequer? Nunca tive.

Ok, para não mentir, tive momentos, frações de minutos, milésimos de segundos, um flash na verdade. O momento vem quando dou o primeiro gole de vinho branco, ligo Florence and The Machine bem alto, canto e penso “Nossa, estou sozinha e estou me divertindo!”, a plenitude me atinge por inteiro e quando  tomo consciência dela… puf! Se vai.

Conversei com algumas amigas sobre isso e elas me disseram que já tiveram essa fase, a fase de não só não querer querer alguém, mas realmente não querer alguém. Fiquei olhando atordoada para elas enquanto me diziam que realmente não queriam alguém. Não entendi e não entendo.

Minha jornada amorosa me fez crer que carência tem limite. Não dá para ficar com alguém que você não sente “a coisa”, ficar com alguém para suprir puramente a carência acaba sendo pior do que ficar sozinha. Já saí com caras que durante o encontro não parava de pensar que diabos estava fazendo ali enquanto poderia estar em casa bebendo e ouvindo Florence and the Machine. Isso é uma vitória, claro que é.

Com essa conclusão deixei de sair só por sair, sem sentir “ a coisa”. Acontece que ainda fico esperando conhecer um carinha e não quero isso. Quero poder sair sem procurar carinhas, quero só sair.

Assim sendo resolvi não procurar mais. Vitória numero 2! Mas ainda não é o suficiente, não procurar não é o suficiente para ser autossuficente. Para ser autossuficiente você precisa estar bem sozinha. E isso inclui amigos.

Amigos são uma coisa que realmente me deixa feliz. Seja fora de casa ou dentro dela, a vida fica mais colorida, com cheirinho de morango.  Saber disso me faz concluir que não sou carente só de amorzinhos, mas de pessoas. Preciso de companhia. Ou seja, há dois problemas aí.

Não conheci muitas pessoas que realmente são autossuficientes, elas são raras, na verdade não acredito nas que me dizem que são. Em sua maioria, se  não tem amigos na vida real, nem companheiros, elas apelam para as redes sociais, precisam dos likes, das fotos mostrando como a vida delas é, alguém precisa vê-las. Ou seja, é a falsa autossuficência. Isso me faz crer  que essas pessoas não existem. Você não é autossuficiente, você está. Se trata apenas de uma fase, muito curta, pra dizer a verdade. As pessoas que a alcançam acabam caindo nas graças de outras pessoas – amigos ou não – cedo ou tarde.

O dicionário informal diz que Autossuficiência “refere-se ao estado de não necessitar de qualquer ajuda, apoio ou interação de outros, para sobreviver. É por isso um tipo de autonomia”. Vamos concordar que se trata de uma utopia.

No momento tento atingir um estado autossuficente, porque eu sei que não serei para sempre e sei também que a gente precisa passar por esse estado cedo ou tarde,  querendo ou não.

 

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‘Como Eu Era Antes de Você’ me fez querer mais
June 27, 2016 - Tags: Cinema, Era para ser uma crônica

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Acabo de voltar de uma sessão de Como Eu era Antes de Você com certo remorso por não derramar nenhuma lágrima sequer  e pelas garotas do meu lado terem chorado por elas e por mim. É com um pesar que hoje percebo que entendo as pessoas que torcem o nariz para filmes hollywoodianos de massa. Mas, veja bem, isso não quer dizer que não vou continuar gostando de Bridget Jones ou Deadpool , mas sim que existem grandes chances de  continuar saindo com a cara enrugada de uma sessão de filme mal feito, desses feitos sem um pingo de profundidade só para vender. Mas antes vamos ao que se trata: o filme citado.

Como Eu era Antes de Você é a adaptação cinematográfica do livro homônimo roteirizado pela própria autora (Jojo Moyes), que conta a história de Louise, uma garota de 26 anos que precisa ajudar os pais financeiramente e que aceita trabalhar como cuidadora do rico Will, homem de 31 anos que sofreu um acidente há 2 anos e ficou tetraplégico. A partir daí o filme fica  uma mistura de A Bela e a Fera com Tudo por Amor (aquele clássico da Sessão da Tarde no qual Julia Roberts cuida de um rapaz com câncer e acaba se apaixonando por ele).

Louise é energética, sorridente, animada e assim como se veste como uma criança de 7 anos age dessa forma, fazendo tudo com a excitação e bom humor de uma garotinha. Já Will é mau humorado, odeia conversar e no início trata Louise muito mal. Já podemos esperar então o rapaz deficiente se abrindo aos poucos com Louise e ambos mudarem um ao outro, um romance surge e, claro, tem que vir lágrimas no final. Acontece que as lágrimas não vieram pra mim.

Apesar do carisma de Emilia Clarke (Louise), a personagem não convence tão bem e os personagens do filme tem que dizer mais de uma vez que Will está sofrendo tanto ao ponto de considerar uma eutanásia. Eles precisam repetir isso tantas vezes para ver se o público acredita porque  Sam Claflin (Will) transparece muitas coisas ao interpretar o tetraplégico, mas nenhuma delas  é sofrimento. Dor, rancor e tristeza são coisas que o ator parece não ter aprendido a interpretar nas aulas de teatro. Pena.

E então os dois de apaixonam e o trágico final encerra o filme, quase implorando para chorarmos  é tudo tão superficial e previsível que flashes de sono passaram por mim o tempo todo, até fiz trança no cabelo!

Veja bem, gosto de romances e gosto de filmes hollywoodianos, mas Como Eu era Antes de Você veio para provar que não consigo engolir mais qualquer coisa.

Sempre tive raivinha daquelas pessoas que falavam mal de Harry Potter, livros da Marian Keys e uma caralhada de livros que foram feitos para públicos que não tem o hábito de ler. Eu penso que nem tudo precisa ser rebuscado e complexo para ser bom e ainda acho isso, o problema é que quando você já leu tantos livros e viu filmes com o mesmo final e a mesma trama passa a se entendiar e um belo dia você está vendo Donnie Darko por diversão e, o pior de tudo, entendendo! (a fase do entender não cheguei ainda).

Não acho que se trata de arrogância, mas sim de simplesmente passar a querer mais do que esses filmes oferecem. 

Ainda acredito que livros e filmes assim são importantes, afinal, são uma porta para filmes e livros mais “complexos”. Ninguém começa lendo com Kafka, eu por exemplo comecei por Meg Cabot e não me envergonho disso, acontece que não quero pagar por um livro nem por uma sessão de cinema e sair de lá sem sentir nada, como se não tivesse aprendido nada, com minha mente exatamente como era antes de eu ter lido ou assistido aquilo e a história daqueles personagens simplesmente se desvanecerem até eu dormir e esquecer.

 

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A vergonha por usar apps de namoro
June 13, 2016 - Tags: Era para ser uma crônica, Textos

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Vejo  muita gente que ainda acha que aplicativos e sites de namoro são motivos de vergonha. E quando digo muita, é mesmo muita. O problema não é só que essas pessoas acham que quem usa esses recursos tem que usar escondido da sociedade ( passar o menu de homens que é o Tinder enquanto está no metrô? Nem pensar!),o problema é que essas pessoas acham que esses recursos são coisas de gente desesperada.

Antes de mais nada, o que será essa gente desesperada?  Pessoas que querem encontrar alguém para namorar, casar, dar uns beijos, fazer um sexo casual? Isso é ser desesperado? Bom, na visão desse pessoal aí de cima é. Talvez porque para elas você deve permanecer sentado na sua casa, frequentar barzinhos ( balada jamais porque também é lugar de gente desesperada) e esperar que Deus lhe envie alguém que vá te proporcionar exatamente o que você quer no momento.

Já perdi a conta da quantidade de risinhos que recebi de amigos por ter meia dúzia de aplicativos e sites de namoro no celular, como se , para eles, eu estivesse correndo por aí, desesperada para  casar com qualquer um que me desse atenção. O ponto é que é justamente ao contrário, eu não quero qualquer um, e por isso devo ir a procura  mesmo, um por um, pra achar aquela pessoa que vai me dar o que eu quero no  momento.

Dia desses um amigo meu veio me dizer: “Não gosto de encontros. Só saio com a menina se for algo garantido, do contrário, prefiro que seja natural”. Mas é claro que todo mundo prefere que seja natural! Ou você acha que eu também não preferiria que minha vida fosse um romance da Jane Austen onde chega um amigo do meu primo de quarto grau, ou um novo vizinho e voalá ele é tudo o que eu sempre sonhei? Claro que sim. Só que a vida real não funciona assim não é, mesmo, fofo?

Voltando para meus coleguinhas que insistem em me olhar torto ou me julgar por ter um  encontro diferente a cada semana (isso é exagero, tá?), eu respondo: colega, e onde você espera que eu conheça pessoas?

Sempre ouço  histórias da minha mãe em sua juventude, lá nos anos 70, quando a turma do bairro dava um bailinho por semana e era assim que as pessoas se conheciam, mas hoje, bem, hoje não tem mais bailinho. Tem os clubes, no entanto.

Discordo de quem diz que clube é lugar de gente escrota. Eu não sou escrota e eu estou lá, aliás adoro estar lá. O número de pessoas inteligentes que conheci em balada ultrapassa o número de gente que conheci, sei lá,  dessa tal “forma natural”.

Eu digo, sem vergonha nenhuma, que meu primeiro namorado conheci no Orkut e meu 2º conheci pelo OK Cupid. Qual o problema nisso? Devo ser classificada como uma carente incurável que se apaixona pelo primeiro ser humano só porque não esbarrei nos meus namorados na rua e os conheci “de forma natural” ?

Duas pessoas que querem conhecer uma a outra e marcam de sair e papear não é natural?

Todo mundo está procurando por alguém. Todo mundo é humano e quer ser amado, não é assim que disse o Morrissey? Qual a vergonha em utilizar de mais um benefício que a tecnologia nos proporciona para encontrar uma pessoinha legalzinha pra bater um papinho e tomar uma cervejinha? Nenhuma.

Então eu digo, coleguinhas, parem de sentir vergonha por usar o Happen. Abram a vontade o app no meio da multidão e folheiem enquanto se está em público sim sem vergonha na cara, porque é isso que todo mundo faz na rua, nas festas, na faculdade… a diferença é só que eles não tem coragem de assumir.  E quando você achar um amorzinho, responda de peito aberto à pergunta “onde vocês se conheceram?”: Nos conhecemos no Badoo. <3

Quer algo mais romântico que isso?

 

 

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Gente de esquerda hipoteticamente falando
May 21, 2016 - Tags: Devaneios, Textos

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Gente de esquerda pra mim é gente que bebe na calçada, é gostar de fazer nada pelo prazer de fazer nada, é lutar por aqueles que não conhecem e pela melhora de uma vida e realidade que, nem sempre, se viveu.

Gente de esquerda pra mim é ser anti elitista, chorar em filme, ler livros de história mas também gostar de Harry Potter. É abraçar os amigos e fazer mais amigos só pela benção que é fazer amigos. É não julgar pelas primeiras impressões e, se julgar, depois assumir. “Julguei. Errei. Caguei”.

Gente de esquerda é ator, é músico, é pintor, é das artes, é do amor ( ou tenta ser, ninguém é perfeito), é mochileiro, é da natureza, é da balada cheia e feia mas que toca música boa.

Gente de esquerda pra mim é feminista, luta contra a homofobia mesmo sendo hétero, contra o racismo sem ser negro, fica triste quando tem algum pensamento escroto e depois sente um prazer inexplicável o desconstruindo pra construir um novo e depois desconstruir de novo. Se policia sobre o que pensar, se questiona todos os dias sobre o porquê de pensar do jeito que pensa. Quando acha que encontrou uma teoria, uma resposta, uma maneira de se tornar melhor, vai lá e muda, porque estava tudo errado.

Gente de esquerda é chinelo de dedo, é roda de violão na praia, é viagem pra São Thomé, é sorriso brisado, é amor ao próximo, é ser pensante. Gente que desliza sempre, mas que assume o deslize e, quando dá, está pronto para sambar de novo e tentar trazer os bolsominions para o lado bom da força.

Obs: Esse texto é apenas minha percepção real, baseada em vivências mundanas, sobre gente CONSIDERADA de esquerda. 

(leu o CONSIDERADA, né?)

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Devaneios sobre a loucura
May 11, 2016 - Tags: Era para ser uma crônica, Textos

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Tenho vergonha de gostar daquele quadrinho da Maitena Burundarena, mas é mais provável que seja um certo receio por me identificar do que vergonha de fato. Sou alterada como todas aquelas mulheres desenhadas ali, mas não chego a ser maluca como elas, senão não seria maluca, uma vez que quase todas as mulheres se identificam com os quadrinhos. Se quase todas se identificam, inclusive eu, o que significa? Que somos todas alteradas e malucas ou eu sou só normal?

Já diria o título daquele filme oitentista: De Médico e Louco Todo Mundo Tem um Pouco, e acredito que todo mundo tenha mesmo, como o Coringa disse no final daquele outro filme, a loucura é como a gravidade, tudo o que precisamos é de um empurrão. Não creio ser saudável usar a frase de um personagem como o Coringa para justificar uma teoria, mas há outra maneira de falar da loucura sem citar os loucos? Kerouac, por exemplo, ama os loucos, principalmente os que queimam, queimam, queimam como fogos de artifício.

Na vida tive a chance de ver muitos malucos na rua. Mendigos gritando com veemência para o nada e sempre quando reparava no olhar deles notava que estavam muito focados. Loucura é eu pensar que deveria mesmo haver alguma coisa ali? Afinal, ninguém poderia olhar para o nada com tanta fixação assim.

Penso que gente mais velha é tudo maluca, mas não porque perderam o controle das suas ações ou estão gritando com veemência para o nada, mas sim porque já possuem todo o controle. Sendo assim, parto da ideia de que quanto mais velhos ficamos, menos ligamos para o que os outros vão pensar e menos fazemos o que os outros esperam que a gente faça. Por isso os idosos podem parecer mais rabugentos, eles não têm que provar mais nada pra ninguém, agradar todos ou ser gentil com quem, nem de longe, merece.

Será o louco aquele que vê tanto em tanta coisa que se cansa de dissecar os detalhes só na cabeça e precisa falar e fazer? Acho que falar é como uma dança: começamos aos tropeços, recatados, pegamos o compasso e depois disso, é puro improviso. Acontece que só os loucos conseguem improvisar dentro do compasso. Mas para improvisar dentro do compasso não precisa ser maluco, precisa? Afinal, ainda se está seguindo o um-dois, um-dois-três. Maluco mesmo é o que nem o compasso usa.

Não falo muito, guardo tudo. Seria isso, finalmente, o que causa a loucura, especialmente a minha (se ela existir)? Guardamos as coisas até não caber mais e explodirmos em milhões de pedaços tão pequenos que se torna impossível de unir de novo?

Acho que posso dizer, não de maneira conclusiva e definitiva porque nada na vida é (principalmente quando o assunto é maluquice), que o louco mesmo, seja eu um ou não, é aquele que não deixa a bizarrice própria fluir. E não fluir da boca para fora (como os velhinhos ou o mendigo), mas sim pela própria mente. Alguém precisa avisar para essas pessoas que repreender pensamento não é bom. Do contrário se explode e não se junta mais. E o problema é que essa explosão não seria a mesma do Kerouac, mas sim uma outra não muito boa, que ao invés de expandir, comprime, comprime, comprime até você desaparecer.

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Paz e Pedras
April 28, 2016 - Tags: Era para ser uma crônica, Textos

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A primeira coisa a ser feita quando se chega nessa cidade é entrar em uma loja de artesanato, e é justamente na hora de ser atendida que toda a essência do lugar se resume. O dono da loja aparece de barba branca e cabelo desgrenhado, anda com os pés metidos no chinelo de couro e sujos de terra vermelha, sorri tranquilo. É assim que se percebe que a cidade é habitada por pessoas como ele, que optaram por morar ali porque em qualquer outro lugar seria enfrentar um stress desnecessário.

Aqui a mensagem é clara, não ande de salto alto nem corra, do contrário pode se estatelar no chão. Isso porque o asfalto não é asfalto, mas sim grandes blocos de pedras que foram socados na terra em níveis diferentes, com a capacidade de fazer qualquer um torcer o tornozelo. Então calce suas sandálias com fivelas e ande devagar.

Ao contrário de muitas cidades turísticas, as construções não chamam atenção nem são bonitas. Se olhar superficialmente não passam de casas de pedra, mas tudo bem, pois a beleza do lugar não fica exposta. O truque é encontra-la nas ações, nos passeios, nas árvores e montanhas que se pode ver de camarote ao atingir o topo do Cruzeiro, lugar mais alto da cidade que se assemelha a uma escadaria de pedra branca com uma cruz feiosa na extremidade, mas que dá para uma vista verde de fazer chorar.

O astro da cidade se chama Ventania, cantor cujas músicas fazem apologia às ervas mas também a vida tranquila. O cinquentão descolado e hippongo recebe os fãs na porta de casa mesmo, dá autógrafos e convida todos para seu show à noite.

Depois de comprar um colar com a pedra do meu signo e um chapéu pontudo é hora de curtir as grutas. As opções são tantas que todo mundo passa rápido por elas com medo de não dar tempo.

Sigo de carro por um caminho de terra, a poeira que sobe faz minha rinite atacar, mas logo passa quando adentro a Gruta do Sobradinho, que causa o estranho desejo de não querer mais sair de lá, permanecer debaixo da terra e esquecer a selva de pedra. Agora a única pedra que compensa pensar é aquela que eu já me preparo mentalmente para subir e pular na água gelada.

Antes mesmo de chegar na cachoeira, o barulho da água corrente ecoa pelas árvores e ansiosos apertam o passo para chegarem logo. Faço o mesmo pois também quero banhar o corpo no Véu na Noiva e renovar as energias. Não importa se não faz tanto calor e a água atinge os ossos com violência. Nada anula o prazer de nadar em águas tão limpas. Dá medo de se afogar ou cortar o pé nas pedrinhas que parecem azulejos quebrados debaixo d’agua, mas é inevitável deixar de nadar mais fundo.

Passear pela cidade quando o sol se foi é obrigatório para notar que as estrelas ainda existem. As bandas dos bares no centrinho repetem o mesmo set list e chega uma hora que fica incômodo. A opção é usar a força para ir até a Pirâmide. Morro de medo de escorregar e quando chego ao topo da casa de pedra olho para cima. O breu profundo provoca um frio na barriga e a consciência de que, mesmo quando não a enxergamos, a natureza é perfeita.

Se Minas Gerais fosse uma pessoa que trabalhou a vida inteira em uma metrópole, São Thomé das Letras seria sua aposentadoria. O momento de deitar na rede e dormir de olhos abertos. Que delícia.

 

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Matando meu Hutt
April 21, 2016 - Tags: Era para ser uma crônica, Textos

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Deixar  de interpretar a vítima do filme exige uma força que  não tive por minha vida inteira. Pode parecer o contrário, mas quem faz sabe que ser a vítima exige muito menos, é mais fácil, mais confortável, mais seguro, menos cansativo e dói como um tapa na boca.

Não lembro direito quando foi que resolvi aderir esse papel, mas acho que foi na pré-adolescência, quando ia para a locadora na sexta-feira a noite e alugava ao menos dois filmes de comédia romântica ( preferencialmente adolescentes) e passava o final de semana inteiro assistindo. O que eu aprendi  com esses filmes não foi apenas que há um final feliz, mas sim que há um final feliz depois de muito sofrimento da protagonista, sem ela necessariamente levantar um dedo, como um presente da vida. Era como o universo dizendo “Você já sofreu muito bullying, teve o coração partido muitas vezes, abaixou a cabeça a vida inteira. Agora tome aqui o amor da sua vida, uma bolsa na melhor faculdade e uma autoconfiança que crescerá em você  em um passe de mágica”.

O resultado disso tudo, foi que  aprendi que sofrendo muito, sendo boazinha, não correndo atrás dos meus objetivos e fazendo um  ótimo papel chegando em casa e chorar até dormir, eventualmente a vida teria pena de mim o suficiente e me daria tudo o que eu sempre quis. Infelizmente não acontece assim.

Ser vitimista inclui, além de ter uma auto-estima péssima, você se sentir que não merece o que realmente quer, e quando está pertíssimo de conseguir (como beijar o seu primeiro amor ou estar na última fase de entrevista daquela revista onde sempre quis trabalhar), vem a famosa auto-sabotagem. Inclui também você se sentir a protagonista da sua vida, mas aquela protagonista que nunca consegue sair da fase ruim do começo do filme. A fase onde a garota está feia, perdida, desempregada, sem chão.

Abraçar o vitimismo é cair em uma areia movediça e se afundar aos poucos sem perceber, até que a areia chega no pescoço e você percebe que ou cria forças para não se afogar de vez e sair dali, ou morre.

Hoje, aos  vinte e cinco, percebi que a areia não demorou para chegar no pescoço. E vi que  se esconder, se deixar sofrer e, o pior de tudo, correr atrás do sofrimento certeiro, não me levará a lugar nenhum.  Parece óbvio para quem não entende o que é assumir o papel de vítima.

É muito mais dolorido acreditar que não consegui um emprego porque não sou boa do que pelo fato de tudo estar contra mim? É claro que é! É muito mais duro acreditar que não atraio as pessoas porque sou carrancuda do que achar que é porque nenhuma daquelas pessoas me entende? Sem dúvida! Só de escrever isso já me aperta a garganta e um ataque de pânico começa a chegar de mansinho.

Acredito que todas as Leias precisam matar o seu Jabba. Se eu não gosto de como minha vida está e como sou agora, não tenho que me enforcar, tenho que enforcar o meu Hutt. Aquilo que me impede de jogar a mantinha das lágrimas e o pote de sorvete no chão e ir andar de bicicleta.

Não haverá um plotter twist, momento Rocky Balboa, vídeo clipe de Marry The Night. Pode ser que venha a ser uma luta pela vida inteira, e haverá perdas. Mas é aqui que enforco meu monstro, meu  Jabba, meu (ex-) vitimismo.

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Sempre tem
March 29, 2016 - Tags: Devaneios, Textos

Sempre tem aquela pessoa que você vai responder as mensagens super animada. Oi! Tudo ótimo! E você? Diga!! E ela vai responder blasé e pedir alguma coisa e você vai dar, porque quando ela pede você sempre dá.

Desesperada para parecer interessante, para captar sua atenção você vai vomitar mensagens idiotas e piadas sem graça e a pessoa vai sumir, sem cerimônias. Bem assim, quando você faz uma pergunta, sem medo nem escrúpulos de te deixar no vácuo. Até ela voltar e  você responder as mensagens super animada . Oi! Tudo ótimo! E você? Diga!! E você vai dar, porque quando ela pede você sempre dá. Sempre.

O intervalo aumenta conforme a frequência das mensagens diminuem. E não há curtidas em posts que alimentem suas expectativas mais. Até que, por fim, a pessoa, assim como seu perfil, começa a virar um fragmento muito pequeno da sua vida e você começa a rir de como a pessoa está enfeiando.

Dizem que a vida é uma montanha russa. Uma hora se está por baixo, mas eventualmente acabamos ficamos no topo também, um ciclo. A pessoa teve seu topo e agora está descendo. E você está aqui esperando ansiosamente sua vez de ficar deslumbrante e lançar um best seller.

 

 

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