Discutir é uma arte
August 16, 2016 - Tags: Era para ser uma crônica, Textos

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Eu falei pra ele que se lembrar exatamente de como era ser adolescente nada tinha a ver com amadurecer ou não. Ele disse que sim, que quem ainda sabe como é se sentir um adolescente não amadureceu. “Então John Green e John Hughes são superimaturos, porque eles escreveram para adolescentes e sobre adolescentes de uma maneira que mostrou que eles nunca se esqueceram dos dramas da idade”, respondi.

“SIM, exatamente”

“Não” insisti. “John Hughes era maduro. Você vai me dizer que John Green chora porque não pode comprar um tênis? Claro que não! Eles só não se esqueceram da sensação de ser jovem… A vida adulta não os corrompeu”.

“Ou seja, eles não amadureceram.”

“Não… Veja bem, amadurecer…”

“Ok. Você está certa, você venceu.”

E assim ele encerrou a discussão que poderia salvar aquele encontro heteronormativo apenas para me fazer calar a boca porque ele não estava a fim de discutir. Porque, claro, ele era mais maduro que eu, então deixou eu ganhar a discussão. O problema é que não era uma questão de vencer, uma discussão é uma questão de trocar ideias e sair dela com dúvidas, resolvido ou quiçá com uma ideia diferente.

Isso é algo que vejo acontecendo frequentemente na minha vida. As pessoas acham que o fato de eu dissecar um assunto, perguntar o motivo de elas pensarem daquela maneira e tentarmos, juntos, desconstruir algo é uma briga. Não é uma briga, não é uma discussão. Eu não quero ganhar. É um debate, já ouviu falar? Supersaudável e legal.

Fico imaginando como deve ser uma conversa para essas pessoas que fogem do confronto e acham que respeitar a opinião alheia envolve não questionar:

“Gosto de filmes de heróis, mas não gosto de Batman o Cavaleiro das Trevas.”

“Não? Que estranho. Mas tudo bem, respeito sua opinião. Me dá a mãozinha e vamos ser felizes e saltitar olhando para o céu o passeio inteiro”.

No meu mundo, as coisas seriam:

“Não? Que estranho. Tem que ter alguma coisa no Batman o Cavaleiro das Trevas que você não gostou. Achou muito obscuro? Talvez você goste de piadas, tente ver mais filmes da Marvel, então. Mas se você olhar por um lado X talvez o filme fique melhor, o que você achou da trilha sonora? Da fotografia? …”

Olha que lindo – talvez nem tanto escrito porque parece um interrogatório, mas deu pra pegar a ideia geral, não deu?

Li agora no livro da Jout Jout um trecho que fala que “as pessoas querem alguém que fale o que elas já sabem”. Penso que não, porque nem sempre. Talvez as pessoas precisem de reafirmações, alguém que pense igual a elas para se sentirem seguras, mas isso não pode ser sempre. Que tipo de namoro ou amizade tediosa teríamos se pensássemos igual? Quando entraria a parte que mudaríamos de ideias, de opiniões? Nunca, se for desse jeito.

Virou frequente boys falarem que estou certa só para me fazerem calar a boca. Seja porque eles não têm argumentos ou porque acham perda de tempo ficar uma noite inteira conversando sobre o vagão rosa do metrô. Mas cansei. Hoje me rodeio de pessoas que apreciam um bom debate, uma boa discussão.

O desafio é fazer essas pessoas entenderam que não é porque quero fazê-las entender algo ou saber o motivo de ela achar certa coisa que estou brigando com elas.

A pergunta que eu e todo mundo temos que nos fazer é: vale a pena sair com quem acha isso chato? Óbvio que não. Se meus amigos ou meu possível boy não querem ouvir o que tenho para falar, acham besteira discutir ou – o pior  –  eles mesmos não tem o que falar…Beijos.

Vai rolar gritos? Sim, conversar é algo que envolve ego e exige muita aptidão para não se ofender com algo, não levar para o pessoal, saber discernir quando se trata realmente de opinião ou gosto pessoal e, principalmente, saber quando você não tem argumentos e está na hora de mudar de ideia ou estender a bandeira branca. Algumas cutucadas pessoais e irritabilidade também podem rolar, mas a discussão não vai acabar até me fazerem mudar de ideia, eu mudar a ideia de alguém ou chegarmos a concordar em discordar. Até lá quero distância de quem fala que estou certa achando que saiu por cima porque não “quer discutir isso comigo”.

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