Problematizando os filmes do John Hughes
March 04, 2017 - Tags: Arte, Cinema, Devaneios, Textos

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Problematizar John  Hughes talvez seja a coisa mais difícil que tenha que fazer. Eu admiro muito seu trabalho como roteirista e diretor. Ele foi capaz de entender a alma jovem mesmo já tendo passado da adolescência, e por meio dos seus filmes se comunicava com adolescentes que tinham seus medos e dramas desconsiderados apenas por terem 16 anos. Filmes como O Clube dos Cinco fala de como a sociedade é cruel, separando pessoas que poderiam vir a ser amigas, mas que, devido as panelinhas, não se conhecem, não mostram seus verdadeiros lados. Curtindo a Vida adoidado dramatiza um adolescente que quer só aproveitar a vida, mas tem uma grande mensagem – se você não sabe qual é, sugiro assistir o filme novamente .

Acontece que fica difícil ver tais filmes hoje em dia, quando você já tem uma visão mais apurada de falas machistas e/ou sexistas. Não creio que John tenha sido de fato machista, as coisas em 1980 eram muito diferentes de hoje, falas que possuíam nos filmes de antigamente jamais entrariam nos de hoje em dia. Tudo era mais jogado na época. Se feitos atualmente, John Hughes provavelmente reescreveria tudo. Além de já ter feito personagens femininas fortíssimas para os filmes da época, tenho certeza de que hoje as faria ainda mais fortes.

Mas, como já citado aí em cima, coça os dedos e a boca para não falar nem escrever sobre algumas situações nesses filmes que tanto amo. É por isso que aqui estou, com pesar, apontando algumas das vezes em que John Hughes foi machista e eu só percebi agora.

 

Sixteen Candles – Gatinhas e Gatões

1 . No baile da escola, o personagem Nerd (sim, ele não tem nome), inferniza a protagonista Samantha para ficar com ele. Depois de ver os dois conversando, o galã e amor platônico de Samantha, Jake, pergunta para o Nerd se ele a conhecia. “Sim. Por que?  Ela é sua?!” diz o garoto em um tom desesperado de perdão, ao que Jake responde que não.

Usarei o Raio problematizador pra facilitar sua vida caso não tenha visto nada demais nessa fala: se Jake falasse que Samantha era “dele” o Nerd iria parar de atazaná-la, mas apenas e exclusivamente porque Jake aclamaria ser  o “dono dela” (bandeira vermelha I). Porém, como a garota ainda não “pertencia a ninguém” OK continuar fazer da vida dela um inferno (bandeira vermelha II) e assim ele o faz pelo baile inteiro.

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2. Depois de um festão na sua casa, Jake desabafa para o Nerd que não está feliz  namorando a garota mais popular da escola e que talvez a protagonista Samantha seja uma escolha bem melhor. É quando ele olha para o Nerd e diz “Eu tenho uma namorada  desmaiada na minha cama, poderia violá-la de 10 maneiras diferentes agora, mas não quero”. Depois ele completa dizendo que tudo que sua namorada  quer é sexo e festa. Entendemos o que Jake quis dizer, mas BANDEIRA VERMELHA! Foi uma fala muito infeliz,  Hughes.

3. Depois do desabafo, Jake precisa se livrar da namorada bêbada e desmaiada. Como é um namorado maravilhoso – só que não – ele entrega a garota para o Nerd e até empresta o carrão do seu pai para o garoto ficar mais feliz.

Ao “dar a namorada” para o Nerd levar até a casa dela, Jake fala para ele se divertir com ela. A garota está desmaiada, com um cara que não conhece e ele permite que o rapazinho nerd se “divirta” com ela. Entendo que a garota é superficial e chata, mas ela ainda é um ser humano, não é mesmo, Jake? Dispensa raio problematizador.

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The Breakfast Club – O Clube dos Cinco

4. Quando os cinco adolescentes estão tendo o diálogo mais profundo do filme ( aliás, muito bem feito, escrito e desenvolvido),  todo mundo fica enchendo o saco da personagem popular, Claire, para ela falar se já tinha transado ou não. A seguinte fala da personagem Allison pode ser vista de duas maneiras:

“Bom, é uma faca de dois gumes, não é? Se você transou vão te chamar de vadia, se não transou é puritana. É uma pegadinha”.

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Allison pode tanto estar problematizando a injustiça que é isso ou não. De fato é uma fala tão real que funciona até hoje. Se você não transar é frígida, se transar é vadia. Nada que a mulher faz está correto. Excelente Hughes apontar isso em um filme adolescente, mas poderia ser mais desenvolvido, pois se Alisson estivesse problematizando só pareceu que ela estava acusando Claire do tipo “se você fez é vadia, se não é puritana. Se vira com isso aí e responde logo se já transou ou não!”.

5. Aparentemente  todo o  grupo pega Claire para cristo. No mesmo diálogo, logo após Alisson dizer que fazer sexo ou não fazer é uma pegadinha, ela pergunta para Claire se ela é uma provocadora, e Claire pede para todo mundo deixar esse assunto para lá, ao que o atleta Andrew diz:

“Você é uma provocadora e sabe disso. Todas as garotas são”.

Então o malandrão do filme, John Bender, entra na conversa também:

Fala logo, você é uma provocadora”.

“Eu não sou provocadora” – rebate Claire.

John insiste.

“Claro que é. Você mesma disse. Sexo é sua arma, você mesma disse. Você usa para conseguir respeito”.

“Não, eu nunca disse isso. Ela (Allison) destorceu minhas palavras.”

John, não contente, insiste em perguntar novamente.

“Para que você usa então?!”

“Eu não uso para nada. Ponto final!”

“Ah, entendi. Então você é clinicamente ou psicologicamente frígida?” – finaliza John.

Todos ficam acusando Claire de ser uma provocadora porque: 1) Todas as mulheres são (BANDEIRA VERMELHA! Aparentemente nós mulheres saímos por aí provocando tudo e todos e nem nos damos conta disso. Agora sim entendi porque somos estupradas) e 2) Ela não faz sexo, então usa isso para ter poder sobre os homens. Ou seja, para eles, Claire não sair dando pra todos os caras é porque ela considera sexo – ou a falta dele – uma forma de poder e usa isso muito calculado friamente a seu favor ( super bandeira vermelha!). Por fim, 3) Depois de admitir que Claire não usa o sexo para conseguir o que quer (seja fazendo ou não), John Bender a chama de frígida. Se não viu problema aí, volte para a casa 4.

 

6. John Bender assediou Claire desconfortavelmente ao longo do filme inteiro e, mesmo assim, a garota o beijou no final do filme.

Mas hein? Vez ou outra eu consigo interpretar isso da seguinte forma: bom, ela viu que ele era um babaca por ter uma vida realmente difícil. Debaixo dessa camada estereotipada de bad boy ele é uma pessoa legal e boa e ela pensou estar beijando essa camada. Entendo que, talvez, o intuito de John Hughes tenha sido quebrar estereótipos fazendo a popular certinha ficar com o malandrão, mas é um pouco difícil não se incomodar com isso no final das contas.

 

Agora, pausa para uma observação sobre o personagem John Bender

Já vi muitos textos que fazem de John o principal alvo de problematização de O Clube dos Cinco, mas  na verdade John não precisa ser problematizado pois o personagem foi feito exatamente para ser o problema.   O bad boy – que não larga do pé da personagem popular Claire um minuto – a assedia, a faz se sentir menor e envergonhada por inúmeros motivos, mas ele não é um grande problema no filme pelo mesmo motivo que não critico um filme que possui um estuprador como personagem. Se o papel do personagem estuprador é estuprar, como irei me incomodar com isso? Se vejo um filme de terror onde o monstro mata não faz sentindo achar ruim o monstro ser um assassino.

Não sei se me fiz entender bem, mas é o seguinte: John é um babaca, machista, com problemas mentais e comportamentais que foram expostos no filme. Ele está ali para ser um babaca mesmo, por essa razão não há motivo em problematizar suas ações, uma vez que são bem explícitas. O personagem é um babaca. Ponto. Aceite suas babaquices ou só veja filmes com pessoas bondosas. Caras como Bender tem aos montes no mundo, por isso continuaremos a ver filmes cheios deles.

Além de tudo isso, John Bender é um personagem necessário pois, se você ver o filme novamente, vai notar que se não fosse ele os personagens não iriam interagir. Sendo quem era,  fez todos se unirem contra ele, depois reclamarem dele e até causar briga entre eles mesmos. Portanto, John infelizmente foi um elemento necessário. Ele agitou as ondas da interação no roteiro. Sim, defendo Bender, mesmo, de fato, ele tendo assediado muito Claire. Algumas situações são desconfortáveis de assistir estando eu do ponto de vista da garota.

 

7. Vem a parte que mais me incomoda, pode parecer besta depois de tudo isso, mas é o seguinte: temos a personagem Allison que é a esquisitona do filme. Ninguém olha para ela com admiração, só repulsa. Mesmo sendo bonita para os padrões, o fato de ela falar o que fala e se vestir do jeito que veste a torna “inamorável”.

Mas, veja só, logo depois de Claire oferecer um make over para a garota (cena fofa, aliás). O esportista Andrew parece só reparar nela depois que essa repaginação acontece.

Andrew diz que ela está bonita, mas fica claro que é porque agora ela está como todas as outras garotas da escola. Feminina, frufru, normal. E assim, sem se incomodar com o fato de que o garoto só foi olhar para ela porque ela trocou de roupa,  Allison cai no papo e fica com ele. Shipo?Shipo. Mas Jonh Hughes poderia quebrar estereótipos – que é exatamente sobre o que o filme fala – deixando a “esquisita” continuar esquisita e mesmo assim ficar com o atleta. Isso sim seria maravilhoso.

Pretty in Pink – A Garota de Rosa Shocking

8. A protagonista Andie, nada popular, vitima de bullying e bolsista na escola,  começa a sair com Blane um dos garotos ricos e populares. O filme gira em torno de ela ter vergonha de ser pobre e ele rico e ela começar a entrar no ciclo de amizades que, junto com seus amigos, tanto repudiava. Acontece que  depois de promessas e falas fofas em que jurava não ligar para status e demonstrar que se importava, Blane  deixa  Andie na mão.

Depois de a convidá-la para o baile e a garota se encher de expectativas (como acontece com todas as protagonistas de adolescentes em filmes americanos) Blane a desconvida de última hora e termina tudo  puramente por não aguentar a pressão dos amigos. Amigos que chamavam Andie de lixo que servia apenas para transar só por ser pobre.

A garota não se deixa abalar. Mesmo assim faz seu lindo vestido rosa e vai sozinha para o baile de formatura enfrentar todos aqueles que a odeiam. Ótima mensagem, John Hughes…Mas…

Quando finalmente você pensa que veria um filme onde a protagonista fica feliz e sozinha, o lindão reaparece, pede desculpas e ela o aceita de volta. Mesmo depois de a ter humilhado e “desistido” dela. Ah, não né!?

No meu final alternativo Andie ficou sozinha, segura e feliz e seu melhor amigo ( não citado nesse post) parou de dar em cima dela e passou a vê-la apenas como amiga.

Essas são algumas coisas que, ao assistir recentemente, me incomodaram. É engraçado porque quando incomoda não tem como fugir da problematização. Então parei, pensei “por que senti essa alfinetada aqui? Ah, foi por isso” e cheguei nessas conclusões. John Hughes não era um visionário, apenas refletia uma geração nos seus filmes, sei disso. Esses filmes cumprem bem o papel de entreter e de quebra passa mensagens, é por essa razão que, mesmo com tais pontos incômodos, continuarei amando todos.

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