Áreas cinzas e o desequilíbrio do poder
March 27, 2017 - Tags: Era para ser uma crônica, Textos

Girls está na sua última temporada e como se houvesse guardado o melhor para o final propositalmente, Lena Dunham – criadora da série – ofereceu um episódio que causou um rebuliço no meu estômago. Terminei de assisti-lo angustiada, com algo preso na garganta, furiosa, mas principalmente triste. Tão triste que foi impossível não chorar. Fiquei com o episódio por um longo tempo na cabeça, não deixei de pensar nele por dias até tomar a decisão de vê-lo de novo para esclarecer o sentimento que me causou e finalmente entender o porquê.

O 3º episódio da 6ª e última temporada se chama American Bitch e começa quando um escritor aclamado convida a protagonista Hannah para seu apartamento. O motivo do cara é contar o seu lado da história sobre um artigo que Hannah havia escrito sobre ele. O artigo em questão trata das acusações de assédio sexual que esse autor recebeu de quatro garotas diferentes, e por causa disso ele não conseguia mais dormir, começou a fazer ­­terapia, meditação e perdeu 9 kilos.

Pensei então que Lena Dunham havia dedicado o episódio especialmente para falar sobre esses homens acusados de assédio por alguma garota, cuja história pode ser relativizada e causar um debate muito longo sobre consentimento. Assim, me aconcheguei no sofá e assisti pacientemente esse personagem se explicar e acusar Hannah de escrever um artigo sobre textos de mulheres – note bem, MULHERES – que ela nem conhecia, baseado em boatos.

Talvez esse cara tivesse razão e, assim como Hannah, o ouvi e me deixei levar. Ao longo da conversa, o personagem diz que nunca forçou ninguém a fazer sexo com ele, afinal todas as garotas que o acusaram de assédio sexual foram por livre vontade.

É engraçado, mas tudo o que ele fala começa a fazer muito sentido, no entanto a agulhinha do incômodo me espeta de leve na nuca. Já havia ouvido isso antes, a fala de que mulheres que acusaram algum homem de assédio sexual, na verdade, estavam inventando tudo. Inventaram porque sentiram-se magoadas e rejeitadas por esse homem. Então nada do que esse personagem escritor fala é novo, é um discurso muito velho: a manifestação da desconfiança. Por que devemos acreditar em universitárias que acusaram um autor famoso de forçá-las a fazer sexo oral nele?

Talvez ele esteja sendo sincero, concluo comigo. Fico quieta quando o personagem perde o controle e grita com Hannah que tudo o que ele fez foi convidar aquelas garotas para seu quarto de hotel. Onde um convite é um assédio?!

Tendo ele dito isso, Hannah cita o desequilíbrio do poder na seguinte fala:

“Estou falando da parte em que você é um escritor famoso e ela trabalha muito para receber uma migalha do que você recebe todo dia. Então você a convidou para ir ao seu quarto de hotel e o que ela deveria dizer?Não? Ela o admira. Então você tira a calça. O que ela vai fazer sem seguida?Você não entendeu. Não é que ela foi até lá para ter algo sobre o que escrever. Foi para ela sentir que existe”.

– perdão pelos possíveis erros de tradução.

Não estou falando que todas as mulheres que fazem isso são coitadas que, meu Deus, só querem a atenção de um homem que elas admiram, mas essa fala ficou muito clara para nos fazer entender a dinâmica do poder. E isso pode se aplicar em incontáveis escalas: de uma adolescente e um youtuber que ela admira – são INÚMEROS os casos de youtubers pelo mundo que constroem uma relação de poder e submissão com suas fãs, basta dar um google – , até uma garota comum com a autoestima baixa e seu ex-namorado que só queria uma transa rápida.

Por fim o escritor diz que convidar uma adulta para seu quarto sem forçá-la não é um crime. Convites não são áreas cinzas, são apenas convites.  Ah, a área cinza. Saber que nem tudo é preto ou branco, que cada um faz o que faz por certos motivos, é reconfortante,  pois todos nós temos  traumas e histórias, mas apesar de oferecer o conforto de justificar atitudes que não conseguimos explicar nem entender, a área cinza é perigosa. É perigosa porque algumas coisas que não devem ser postas lá, são. E uma dessas coisas é o assédio sexual.

Vamos lá, quem com menos de quinze anos nunca foi assediada? Nós sabemos. Sabemos que quando está acontecendo não vemos nada demais. Ficamos lá, paradas, assistindo acontecer. Pode ser só uma massagem de um professor, um velho agarrando seu braço na rua quando você tinha dez anos, seu professor de teclado acariciando suas coxas quando você acertava as notas. Situações que, se ditas em voz alta, não parecem tão graves assim, pois carinho e elogios são relativos, certo? Se tratam, afinal, de áreas cinzas.

Assim como Hannah, e talvez Lena, me descobri cansada da área cinza. Me cansei porque é por causa dela que muitas de nós não entendemos o que exatamente aconteceu, porque usamos a relativização em busca de respostas. E, às vezes, a resposta está no preto ou no branco, nunca nos dois. Às vezes nem tudo possui dois lados.

Com essa revelação feita o episódio e eu seguimos juntos… Hannah se desculpa por ter escrito o artigo agora que conhecia esse escritor melhor. Eles criam uma sintonia e afinidade quando ele deita na cama encolhido, como um bebê desprotegido, e a convida para fazer o mesmo. Hannah deita e ele…bom, ele abre o zíper e coloca o pênis para fora.

Hannah, com o pênis do escritor jogado na sua perna, estende a mão em um impulso e pega nele. Quando percebe o que fez, entra em pânico.

E como ela falaria sobre aquilo? Como a gente faz para explicar ? Como dizer que na hora, mesmo ninguém tendo te obrigado, se trata de assédio? Se você entrou ali por livre e espontânea vontade, resolveu partilhar um momento com alguém e acabou fazendo algo que não queria fazer…Oras, é sua culpa!

É como uma redoma que só você se encontra e percebe depois, quando tudo parece estar bem mas ficou alguma coisa ali, igual um hematoma que surge no  braço e você não tem ideia de como foi que aconteceu.  O que resta fazer então? Como explicar de onde veio o hematoma sendo que nem você sabe? Então ficamos ali, presas àquele momento para sempre.

American Bitch, enquanto questiona o tal do consentimento, desafia com o queixo erguido esses homens que estão ali, conscientemente ou não, abusando do seu carisma e do seu poder, criando situações tão cinzas que não há cartela de Pantone que mude.

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