O Carnaval dos 25
February 25, 2016 - Tags: Era para ser uma crônica, Textos

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A ressaca é evidente. Me lembro quando ia para as festas com treze anos e no dia seguinte, apesar do sono, meu corpo ainda parecia ter sangue pulsando. Hoje  me sinto  morta. Tem  um elefante em cima de mim. Surgiu até uma tendinite esquisita no meu pulso, devo ter dormido em uma posição bizarra, toda torta, babando feito uma velha que bebeu muito vinho no casamento da sobrinha.

Esses são meus 25 agora. Eu acordo na minha própria cama em uma quarta-feira de cinzas, depois de, pela primeira vez na vida, ter saído de casa com o objetivo de curtir o Carnaval.  Nunca fui do samba nem da zona, mas desde criaça sou obscecada por festas e tradições. E a experiência que eu gostaria de ter quando criança, no que se refere ao Carnaval, era sair na rua com os bloquinhos tocando Chiquinha Gonzaga, pessoas dançando frevo, eu com um lindo vestidinho pintado com as cores do arco-iris e alguém jogando confete e glitter na minha frente estrategicamente.

Tudo parecendo uma cena difícil de se concretizar, resolvi abandonar o Carnaval de vez antes mesmo de tentar. Virei dessas pessoas que comemoram o feriado pela folga no trabalho chato ou por ter quatro dias descansando e poder ver todos os filmes possíveis, adiantar a leitura, dormir. Dormir. Doooormir. Então, nesse ano, fiz a piadinha pronta de que faria parte do Bloco Netflix e na sexta-feira  comecei bem: muito filme, muita pizza e Coca (porque não podia beber álcool, devido aos antibióticos que comecei a tomar).

Só que aí o coração partido voltou a choramingar, e não tem nada mais poderoso do que um coração partido. Além do fato da terça-feira de Carnaval ser meu último dia como uma pessoa de 24 anos, eu que não ia ficar em casa vendo Hora de Aventura enquanto ele fazia cafuné nela. Por favor, ainda me resta um pouco de amor próprio!

Então, meus amigos, que são a minha família, e minha família – que por muita sorte também são meus amigos – , se puseram a vencer o calor e a preguiça e partimos rumo a uma folia tardia.

Um carro com seres humanos masculinos parou para encher o saco, na esquerda rolava o bloco folia –  resolvi chamá-lo assim porque tocava um frevinho clássico, o mesmo que eu imaginava quando criança- . Nas ladeirinhas eu vi a multidão dançar a cantar e todo mundo muito bem comportado e bonito e uma energia muito gostosa.

É. OK. Eu estava errada sobre você, Carnaval.

Enquanto o sol se punha naquela praça feiosa da Vila Madalena, olhava estupefata para a beleza de passar meu último dia com 24 daquele jeito. Abdiquei o antibiótico pela Catuába, pro inferno com a dor da cirurgia! Troquei a dor da rejeição por um lindo alto barbudo com cabelo cacheado que beijava tão babado quanto doce. Abdiquei o nojo do suor alheio dançando quase grudada na caixa de som, enquanto o DJ bonitinho e descolado se vangloriava pela festa bonita.

Quando acordei já era dia de cinzas. Enjoada e surda  me olhei no espelho,  vi o que não queria  ver. Alguém de 25 anos. Não estou triste pelas conquistas que não conquistei nem pelo que eu gostaria de já ter vivido e ainda não vivi, porque sei que vou viver. Estou triste porque, de alguma forma, eu realmente esperava que o tempo fosse parar.

Mas é quarta de cinzas. O Carnaval acabou. Ano que vem tem outro e mais outro e mais outro. E as pessoas não vão nem precisar abrir alas, porque eu mesma vou passar sozinha.

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