Matando meu Hutt
April 21, 2016 - Tags: Era para ser uma crônica, Textos

Carrie-Fisher-kills-Jabba

Deixar  de interpretar a vítima do filme exige uma força que  não tive por minha vida inteira. Pode parecer o contrário, mas quem faz sabe que ser a vítima exige muito menos, é mais fácil, mais confortável, mais seguro, menos cansativo e dói como um tapa na boca.

Não lembro direito quando foi que resolvi aderir esse papel, mas acho que foi na pré-adolescência, quando ia para a locadora na sexta-feira a noite e alugava ao menos dois filmes de comédia romântica ( preferencialmente adolescentes) e passava o final de semana inteiro assistindo. O que eu aprendi  com esses filmes não foi apenas que há um final feliz, mas sim que há um final feliz depois de muito sofrimento da protagonista, sem ela necessariamente levantar um dedo, como um presente da vida. Era como o universo dizendo “Você já sofreu muito bullying, teve o coração partido muitas vezes, abaixou a cabeça a vida inteira. Agora tome aqui o amor da sua vida, uma bolsa na melhor faculdade e uma autoconfiança que crescerá em você  em um passe de mágica”.

O resultado disso tudo, foi que  aprendi que sofrendo muito, sendo boazinha, não correndo atrás dos meus objetivos e fazendo um  ótimo papel chegando em casa e chorar até dormir, eventualmente a vida teria pena de mim o suficiente e me daria tudo o que eu sempre quis. Infelizmente não acontece assim.

Ser vitimista inclui, além de ter uma auto-estima péssima, você se sentir que não merece o que realmente quer, e quando está pertíssimo de conseguir (como beijar o seu primeiro amor ou estar na última fase de entrevista daquela revista onde sempre quis trabalhar), vem a famosa auto-sabotagem. Inclui também você se sentir a protagonista da sua vida, mas aquela protagonista que nunca consegue sair da fase ruim do começo do filme. A fase onde a garota está feia, perdida, desempregada, sem chão.

Abraçar o vitimismo é cair em uma areia movediça e se afundar aos poucos sem perceber, até que a areia chega no pescoço e você percebe que ou cria forças para não se afogar de vez e sair dali, ou morre.

Hoje, aos  vinte e cinco, percebi que a areia não demorou para chegar no pescoço. E vi que  se esconder, se deixar sofrer e, o pior de tudo, correr atrás do sofrimento certeiro, não me levará a lugar nenhum.  Parece óbvio para quem não entende o que é assumir o papel de vítima.

É muito mais dolorido acreditar que não consegui um emprego porque não sou boa do que pelo fato de tudo estar contra mim? É claro que é! É muito mais duro acreditar que não atraio as pessoas porque sou carrancuda do que achar que é porque nenhuma daquelas pessoas me entende? Sem dúvida! Só de escrever isso já me aperta a garganta e um ataque de pânico começa a chegar de mansinho.

Acredito que todas as Leias precisam matar o seu Jabba. Se eu não gosto de como minha vida está e como sou agora, não tenho que me enforcar, tenho que enforcar o meu Hutt. Aquilo que me impede de jogar a mantinha das lágrimas e o pote de sorvete no chão e ir andar de bicicleta.

Não haverá um plotter twist, momento Rocky Balboa, vídeo clipe de Marry The Night. Pode ser que venha a ser uma luta pela vida inteira, e haverá perdas. Mas é aqui que enforco meu monstro, meu  Jabba, meu (ex-) vitimismo.

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