Paz e Pedras
April 28, 2016 - Tags: Era para ser uma crônica, Textos

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A primeira coisa a ser feita quando se chega nessa cidade é entrar em uma loja de artesanato, e é justamente na hora de ser atendida que toda a essência do lugar se resume. O dono da loja aparece de barba branca e cabelo desgrenhado, anda com os pés metidos no chinelo de couro e sujos de terra vermelha, sorri tranquilo. É assim que se percebe que a cidade é habitada por pessoas como ele, que optaram por morar ali porque em qualquer outro lugar seria enfrentar um stress desnecessário.

Aqui a mensagem é clara, não ande de salto alto nem corra, do contrário pode se estatelar no chão. Isso porque o asfalto não é asfalto, mas sim grandes blocos de pedras que foram socados na terra em níveis diferentes, com a capacidade de fazer qualquer um torcer o tornozelo. Então calce suas sandálias com fivelas e ande devagar.

Ao contrário de muitas cidades turísticas, as construções não chamam atenção nem são bonitas. Se olhar superficialmente não passam de casas de pedra, mas tudo bem, pois a beleza do lugar não fica exposta. O truque é encontra-la nas ações, nos passeios, nas árvores e montanhas que se pode ver de camarote ao atingir o topo do Cruzeiro, lugar mais alto da cidade que se assemelha a uma escadaria de pedra branca com uma cruz feiosa na extremidade, mas que dá para uma vista verde de fazer chorar.

O astro da cidade se chama Ventania, cantor cujas músicas fazem apologia às ervas mas também a vida tranquila. O cinquentão descolado e hippongo recebe os fãs na porta de casa mesmo, dá autógrafos e convida todos para seu show à noite.

Depois de comprar um colar com a pedra do meu signo e um chapéu pontudo é hora de curtir as grutas. As opções são tantas que todo mundo passa rápido por elas com medo de não dar tempo.

Sigo de carro por um caminho de terra, a poeira que sobe faz minha rinite atacar, mas logo passa quando adentro a Gruta do Sobradinho, que causa o estranho desejo de não querer mais sair de lá, permanecer debaixo da terra e esquecer a selva de pedra. Agora a única pedra que compensa pensar é aquela que eu já me preparo mentalmente para subir e pular na água gelada.

Antes mesmo de chegar na cachoeira, o barulho da água corrente ecoa pelas árvores e ansiosos apertam o passo para chegarem logo. Faço o mesmo pois também quero banhar o corpo no Véu na Noiva e renovar as energias. Não importa se não faz tanto calor e a água atinge os ossos com violência. Nada anula o prazer de nadar em águas tão limpas. Dá medo de se afogar ou cortar o pé nas pedrinhas que parecem azulejos quebrados debaixo d’agua, mas é inevitável deixar de nadar mais fundo.

Passear pela cidade quando o sol se foi é obrigatório para notar que as estrelas ainda existem. As bandas dos bares no centrinho repetem o mesmo set list e chega uma hora que fica incômodo. A opção é usar a força para ir até a Pirâmide. Morro de medo de escorregar e quando chego ao topo da casa de pedra olho para cima. O breu profundo provoca um frio na barriga e a consciência de que, mesmo quando não a enxergamos, a natureza é perfeita.

Se Minas Gerais fosse uma pessoa que trabalhou a vida inteira em uma metrópole, São Thomé das Letras seria sua aposentadoria. O momento de deitar na rede e dormir de olhos abertos. Que delícia.

 

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