O mito da autossuficiência
July 19, 2016 - Tags: Era para ser uma crônica, Textos

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Reza a lenda que os autossuficientes ficam muito bem com eles mesmos, que não tem aplicativos de namoro nos celulares, saem sozinhos, veem filmes românticos no Netflix sem sentir carência. Reza a lenda que esses seres supremos não postam fotos no Facebook para mostrar a vida ótima que têm, não precisam da aprovação de ninguém. Se satisfazem apenas com amigos e, – meu Deus! – até mesmo sem amigos. Esses seres merecem ser estudados e claro, ovacionados por mim, que os admira tanto e espera chegar lá um dia também.

Nunca fui autossuficiente, se não estava procurando por um amorzinho estava chamando meus amigos para sair comigo porque nunca tive – e ainda não tenho – a coragem de sair sozinha por aí. No entanto, a autossufiência verdadeira que digo aqui é aquela que procuro: a de não querer querer alguém. Eu não quero querer alguém, mas não consigo. Sabe aquele sentimento de chegar em casa, ligar o Netflix e ver um filme sem um pingo de ressentimento e carência? Se sentar apenas com você e não pensar em ninguém sem se sentir um pouco sozinha sequer? Nunca tive.

Ok, para não mentir, tive momentos, frações de minutos, milésimos de segundos, um flash na verdade. O momento vem quando dou o primeiro gole de vinho branco, ligo Florence and The Machine bem alto, canto e penso “Nossa, estou sozinha e estou me divertindo!”, a plenitude me atinge por inteiro e quando  tomo consciência dela… puf! Se vai.

Conversei com algumas amigas sobre isso e elas me disseram que já tiveram essa fase, a fase de não só não querer querer alguém, mas realmente não querer alguém. Fiquei olhando atordoada para elas enquanto me diziam que realmente não queriam alguém. Não entendi e não entendo.

Minha jornada amorosa me fez crer que carência tem limite. Não dá para ficar com alguém que você não sente “a coisa”, ficar com alguém para suprir puramente a carência acaba sendo pior do que ficar sozinha. Já saí com caras que durante o encontro não parava de pensar que diabos estava fazendo ali enquanto poderia estar em casa bebendo e ouvindo Florence and the Machine. Isso é uma vitória, claro que é.

Com essa conclusão deixei de sair só por sair, sem sentir “ a coisa”. Acontece que ainda fico esperando conhecer um carinha e não quero isso. Quero poder sair sem procurar carinhas, quero só sair.

Assim sendo resolvi não procurar mais. Vitória numero 2! Mas ainda não é o suficiente, não procurar não é o suficiente para ser autossuficente. Para ser autossuficiente você precisa estar bem sozinha. E isso inclui amigos.

Amigos são uma coisa que realmente me deixa feliz. Seja fora de casa ou dentro dela, a vida fica mais colorida, com cheirinho de morango.  Saber disso me faz concluir que não sou carente só de amorzinhos, mas de pessoas. Preciso de companhia. Ou seja, há dois problemas aí.

Não conheci muitas pessoas que realmente são autossuficientes, elas são raras, na verdade não acredito nas que me dizem que são. Em sua maioria, se  não tem amigos na vida real, nem companheiros, elas apelam para as redes sociais, precisam dos likes, das fotos mostrando como a vida delas é, alguém precisa vê-las. Ou seja, é a falsa autossuficência. Isso me faz crer  que essas pessoas não existem. Você não é autossuficiente, você está. Se trata apenas de uma fase, muito curta, pra dizer a verdade. As pessoas que a alcançam acabam caindo nas graças de outras pessoas – amigos ou não – cedo ou tarde.

O dicionário informal diz que Autossuficiência “refere-se ao estado de não necessitar de qualquer ajuda, apoio ou interação de outros, para sobreviver. É por isso um tipo de autonomia”. Vamos concordar que se trata de uma utopia.

No momento tento atingir um estado autossuficente, porque eu sei que não serei para sempre e sei também que a gente precisa passar por esse estado cedo ou tarde,  querendo ou não.

 

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