Meus filhos não vão ouvir The Cure
May 29, 2017 - Tags: Era para ser uma crônica, Textos

 

 

 

Quando tinha 12 anos, depois da transição Xuxa – Hanson – Thalia – Foo Fighters – Red Hot Chilli Peppers, fui introduzida à uma vida de sentimentalismo, e antes fosse sentimentalismo Celine Dion. Não. Estou falando do sentimentalismo desesperador, aquele que faz a gente querer dançar com a parede usando sobretudo e bebendo vinho quente em pleno sol do meio dia.  Cresci e me desenvolvi de criança para adolescente ouvindo Theatre of Tragedy, Lacuna Coil, Tristania, Lacrimosa e indo à baladinhas góticas sem nem ter peito. Meu mundo era pentagrama, saias longas, roupas e maquiagem pretas.

Depois disso, aos quinze, veio a fase Glam  Rock seguida da liberdade, que consistia no lema “posso ouvir o que quiser, não preciso ser nada. Sou eu.  E eu ouço Kelly Clarkson E Placebo!”. Mas a liberdade não serviu de muita coisa, porque já era tarde. O sofrimento que todo aquele melodrama que ouvi no passado já estava impregnado em mim, ou seja, a trilha sonora da minha adolescência teve um papel fundamental no desenvolvimento da minha essência emocional.

Um dia eu dei uma festa de Halloween aqui em casa, com família e amigos, e a trilha sonora foi de Karol Conka a The Cure. Acontece que enquanto os pops soavam a solta, minhas priminhas entre 7 e 12 anos dançavam alegres na garagem, mas quando a voz do Robert Smith  começou, minha prima Sophia de 8 anos, veio até mim, a DJ, e com as sobrancelhas caídas perguntou:

“Que música é essa?”

“É The Cure, Sophia. Gostou?” eu respondi animada, a música havia chamado a atenção dela, então vai ver ela tinha tendências para um bom gosto musical.

Mas Sophia simplesmente franziu mais a testa, fez uma careta triste e respondeu:

“É uma música muito estranha” – e saiu.

Naquele momento eu soube que jamais faria Sophia ouvir The Cure. Se ela, com aquela idade, em poucos segundos ouvindo a música, já conseguiu sentir o estranhamento que um pós-punk de qualidade poderia lhe causar na alma, o que crescer com aquilo na playlist faria com sua mente ao longo dos anos? Pobrezinha.

Pensando nesse episódio eu desenvolvi a seguinte teoria:  as músicas têm um poder de ativar sentimentos ocultos na sua mente. E não estou dizendo em provocar sensações, mas sim em ativar áreas no seu cérebro que, se não tivesse escutado certa música, não seriam ativadas.  O problema é que uma vez ativada, não tem volta. Principalmente se ela foi ativa em uma fase da vida em que estamos nos formando.

Faz um tempo eu vi um vídeo do Tavião (do Rolê Gourmet) no canal do Youtube The Cookie Collector falando sobre os cinco discos que ele mais gostava. A tag do vídeo era ele explicar o que esses álbuns significavam para ele. Na lista estava um álbum do Radiohead e Tavião explicou que ele ouviu muito o CD quando era adolescente e passava por uma fase muito ruim da vida dele. Acontece com todo mundo, ninguém está triste e quer ouvir música feliz, mas o que Tavião falou ficou na minha cabeça: basicamente o disco alimentou ainda mais aquela fase ruim da vida dele. Com a melodia e as letras do Radiohead constantemente no seu rádio ele desenvolveu uma visão melancólica sobre a vida e nunca mais conseguiu se recuperar disso. Nas palavras dele – até onde me lembro – ele foi tão infeliz naquela época que tornou impossível voltar a ser feliz como antes.

Eu sei, é uma linha de pensamento muito pesada e pessimista.  Parece muita loucura, mas se pensar bem, não é.  A gente vai se tornando aquilo que consumimos ao longo da vida. Absorvemos os filmes, os livros, as pessoas e as músicas que ouvimos. Cedo ou tarde, consumir aquela  música te faz pensar e sentir coisas que você poderia não vir a sentir e pensar se não a tivesse consumido.

Pode ser o contrário também, a pessoa já ter tendências melancólicas e acabar se atraindo por músicas no mesmo estilo, mas não vamos tirar todo o crédito dessa minha teoria altamente bem embasada, certo?

No meu caso já não adianta mais fugir. Na minha playlist os favoritos são os tristes. Os donos das melodias que me fazem tão melancólica que chego a ficar feliz. De qualquer forma não vou mostrar Radiohead nem Smiths para meus filhos. Vou encher o celular deles de Taylor Swift e Ariana. A coisa mais triste que eles escutarão vai ser I just cant stop loving you do Michael Jackson. Isso porque nem triste é, apenas romântica. Mas mesmo assim, se pensarmos bem, pode gerar uma certa dorzinha no coração.

 

 

Imagem retirada de petofpoe.deviantart.com

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